
“A criança atirou-se impulsivamente ao lado da mãe, ocultou seu semblante nas dobras de seu vestido e soluçou:
‘— Mãe, eles estão falando mal de ti!’
Perplexa, Hécuba olhava para a criança que chorava. Ela nunca acreditaria que Cassandra se sensibilizasse, se alguém falasse dela. Menos ainda ela pôde compreender que Cassandra não lhe atribuísse coisa ruim.
Involuntariamente ela puxou a cabeça encaracolada para junto de si, passou levemente a mão sobre os ombros convulsionados e perguntou num tom suave, que nunca se ouvira em sua voz áspera:
‘— O que eles falam de mim? Quem fala sobre a sua rainha?’
A criança relatou o acontecimento que acabara de vivenciar. Ardente foi a indignação que ela expressou por palavras. Ardentes, como fagulhas, caíram cada uma dessas palavras no coração da mãe e inflamaram ali sentimentos intuitivos que há muito dormitavam latentes: pureza! dignidade de mulher! justiça!
Para Hécuba, essas palavras nunca haviam tido outra significação a não ser um som oco. Poetas e visionários podiam se servir delas; no máximo podia-se rir disso como das fantasias de uma criança. No entanto, aqui com a sua própria filha, essas palavras tomaram vida e significação, transformando-se em acusadores e em juízes impiedosos.
Com os dois braços, a mãe abraçou a criança. Pela primeira vez nos sete anos de sua vida, Cassandra repousava no peito da mãe; sentia-se unida a ela.”
Cassandra, Coleção o Mundo do Graal

“A peregrinação bem-sucedida do espírito humano através dos planos da Criação, até chegar ao Paraíso, assemelha-se a uma longa viagem cuidadosamente planejada. Também aqui na Terra, para se empreender uma viagem prolongada, é preciso..."