“No quarto dia após o sepultamento, Triakoh tirou as duas tochas da entrada do palácio. O portal novamente estava aberto, e os amigos chegavam até a casa. Normalmente esse dia deveria ser passado festivamente. Ter-se-iam dedicado à música e a cantos, relembrando-se do falecido, que, juntamente com seus espíritos acompanhantes, já estaria a caminho de um outro país. No fim do dia, teria chegado um contador de histórias para apresentar sagas antigas e verídicas. Poderia também ter acontecido que um sábio ou sacerdote aparecesse, narrando fatos desenrolados entre o grande povo dos entes da natureza. De qualquer forma teriam passado horas em convívio alegre, horas que, ao mesmo tempo, lembravam a cada um que eram apenas hóspedes nos mundos dos planetas… Alguns durante um tempo mais curto, outros, mais longo!”
Roselis von Sass, A Desconhecida Babilônia

“‘— Bem sabes que nós, além do nosso corpo visível, temos ainda um corpo invisível, não um, mas vários. Aquilo que vive em todos esses corpos é o nosso espírito. Isto bem sabes. Ensinei-te também que, quando passamos desta Terra, deixamos para trás apenas o corpo visível.’”
Lao-Tse, Coleção o Mundo do Graal
“Ao contrário do que ocorre com as leis terrenas, as leis da natureza não admitem exceção, pois se a admitissem não seriam perfeitas.”
Reflexões sobre Temas Bíblicos, Fernando José Marques

Sibélia Zanon
Desde o nascimento e pela vida toda carregamos uma cicatriz. O marco centralizado no corpo divide o abdômen em quatro partes, à altura do disco que se insinua entre as vértebras L3 e L4.
A cicatriz indica o local onde um dia esteve implantado um cordão umbilical, rio trafegando sais minerais, vitaminas, oxigênio e glicose entre mãe e feto — porta para a vida.
“O umbigo marca nossa ligação com a Terra e com todos os seres vivos, e não apenas com o corpo de nossa mãe”, sugere o filósofo Emanuele Coccia.
Assim como o umbigo, também o ato de cuidar é gerador da vida. Sem o cuidado não haveria sobreviventes: o primeiro choro inaugura a dependência radical por um provedor de afeto e leite. E essa dependência, palavra culturalmente carregada de estigma e negatividade, faz-se alicerce para a potência e o desenvolvimento.
Com o alicerce desenhado, somos convidados a ousar passos de independência.
E, embora tais passos sejam saudáveis e necessários, a ode à autonomia costuma ofuscar o sortimento de cuidados que nos cercam ao longo de toda a vida — muitas vezes expressos na simplicidade generosa de uma palavra ou de um prato de comida quente.
O cuidado circula por toda parte. O invisível guarda muitos cuidados. Basta pensar que, na materialidade dos corpos, uma ferida pode ser fechada, a exemplo da…
