Naturalmente humanos

Junho 11, 2013


Daniela Schmitz Wortmeyer

Gosto de colecionar contos e histórias. Há alguns anos, encontrei um belo conto zen-budista intitulado “Jardim Zen - A Beleza Natural”, de autor desconhecido, que reconto a seguir com pequenas adaptações:


Um monge jovem era o responsável pelo jardim de um famoso templo Zen. Ele tinha conseguido o trabalho porque amava flores, arbustos e árvores. Próximo dali havia outro templo menor, onde vivia apenas um velho mestre Zen.

Um dia, quando o velho mestre esperava a visita de importantes convidados, o jardineiro deu uma atenção especial ao cuidado do jardim. Tirou as ervas-daninhas, podou os arbustos, cardou o musgo, gastou muito tempo meticulosamente passando o ancinho e cuidadosamente recolhendo as folhas secas de outono. Enquanto ele trabalhava, o velho mestre observava com interesse, de cima do muro que separava os templos.

Quando terminou, o monge afastou-se um pouco para admirar seu trabalho.

"Não está lindo?", ele perguntou, feliz, para o velho monge.

"Sim", replicou o ancião, "mas está faltando algo crucial. Me ajude a pular este muro e eu irei acertar as coisas para você."

Após certa hesitação, o monge levantou o velho por sobre o muro e pousou-o suavemente ao seu lado. Vagarosamente, o mestre caminhou para a árvore mais próxima do centro do jardim, segurou seu tronco e o sacudiu com força. Folhas desceram suavemente à brisa e caíram por sobre todo o jardim.

"Pronto", disse o velho monge, "agora você pode me levar de volta".




Para mim, esse conto guarda diversos significados.

No extremo oposto, estão os jardins ingleses clássicos, com seu formalismo, ângulos uniformes e plantas milimetricamente podadas – onde uma folha caída no gramado representa uma “falha” na composição geral, que deve ser cuidadosamente extirpada. Manter um paisagismo nesse estilo demanda uma alta dose de investimento, por seu elevado artificialismo na condução da Natureza. Ao escrever essas linhas, lembrei-me do inglês Francis Bacon, reconhecido por muitos como o pai da ciência moderna, que defendia que o homem deve descobrir os segredos da Natureza para dominá-la e colocá-la ao seu serviço (por isso o apelidaram ironicamente de “torturador da natureza”).

O velho mestre Zen, em contrapartida, mostrou ao jovem monge a importância da naturalidade na composição de um jardim. Ainda que moldado por mãos humanas, o paisagismo deve imitar as formas e movimentos da Natureza, salientando-os aos olhos do observador. Por isso ele sacudiu a árvore, libertando suas folhas sobre o cenário composto pelo homem... Nessa concepção, a verdadeira beleza emerge da integração do ser humano com o ambiente natural, em uma dança harmônica ao ritmo das leis universais. Um olhar bem diferente do adotado pela ciência ocidental inaugurada por Bacon.

Pode-se perceber que esse conto não trata apenas de jardins, mas de uma visão de mundo, de uma maneira de se relacionar com a vida, que pode ser percebida em diversos contextos.

Existem pessoas que são como os jardins ingleses: não saem de casa sem estarem milimetricamente “produzidas” da cabeça aos pés. Tudo é calculado, antecipado, nada pode estar fora do lugar – ou seja, nada pode ser natural. O balançar dos cabelos pelo vento representa uma ameaça à “perfeição” da obra, que geralmente demandou um grande investimento de tempo e energia em sua composição. Do mesmo modo, gestos, palavras e manifestações afetivas são ensaiados, visando transmitir determinada imagem aos espectadores. Vive-se uma personagem, que tenta esconder as “imperfeições” de seu intérprete seguindo um roteiro padronizado, quase sem margem para adaptações e improvisações originais.

Mas, ufa, um observador atento poderia questionar: o que há tanto para se esconder do mundo externo? Por que é necessário tanto artificialismo nas relações?

Estávamos hospedados pela primeira vez na casa de um amigo, já faz muitos anos, e locamos um filme para assistirmos naquela noite. Ainda pouco à vontade naquele novo ambiente, olhávamos atentamente para a tela, sem emitir comentários. Mas a verdade é que o filme escolhido era péssimo. Qual não foi minha surpresa, quando nosso amigo levantou-se e disse: “Bom, eu vou dormir. Vocês fiquem à vontade”, e se retirou da sala sem qualquer constrangimento. Instantaneamente eu respirei aliviada. A partir daí, também me senti livre para desistir do filme, assim como para ter uma convivência mais natural naquele espaço. Percebi que lá também não havia aquela preocupação excessiva em esconder a dinâmica natural da casa, com seus aspectos por resolver, das “visitas”...

Cultivar a beleza e buscar o aperfeiçoamento não precisam significar “torturar” nossa natureza, com implacável rigidez e obstinação. É possível ter flexibilidade e tolerância nesse processo, compreendendo que o Universo se equilibra graças ao interjogo de polaridades opostas e complementares. Por exemplo, ordem e desordem são momentos que se alternam quando há desenvolvimento. É necessário desorganizar o já estabelecido para que possam surgir novas formas de organização. A fixação exagerada em um dos extremos produz estagnação e desarmonia, engendrando-se por vezes uma casca na qual a forma não faz jus ao conteúdo.





O filme fracassado, a louça suja na pia, o penteado alterado pelo vento, as folhas espalhadas no chão, são situações que existem onde há vida. Onde existe movimento, há tarefas inacabadas, coisas por resolver, marcas da natureza no corpo e inquietações na alma. Por que fazer de conta que somos seres prontos e acabados?
Penso que às vezes não haveria real necessidade de toda essa performance, não fosse a imensa insegurança no íntimo dos atores, um colossal medo de não corresponder a expectativas externas e sofrer rejeições. Parece que acreditamos nas imagens ilusórias disseminadas pela mídia, de pessoas “perfeitas” e “superpoderosas” vinte e quatro horas por dia, sem refletir que todos os seres humanos reais possuem fragilidades e limitações.

Ao ocultarmos nossa verdadeira natureza, mantemos relacionamentos superficiais e distantes, que não possibilitam o autêntico encontro entre as pessoas e o compartilhar de situações propriamente humanas. Agindo como personagens de faz-de-conta, o máximo que conseguimos é viver uma encenação, que não consegue preencher nossas necessidades mais profundas.

Quão diferente é, porém, quando encontramos alguém que aprendeu a lidar com suas inseguranças e imperfeições, expressando-se de forma natural. Uma pessoa que consegue assumir seu inacabamento, seus erros e acertos sem medo, enquanto busca humildemente tornar-se cada vez melhor, torna-se mais capaz de compreender as limitações alheias. Sentimo-nos diante de alguém realmente “humano”. Segurança, verdade e confiança abrem passagem, trazendo transparência e profundidade ao relacionamento: passamos a também querer ser mais autênticos e humanos, apoiando-nos no solo firme de nossa própria essência, em vez de vivermos como espectadores passivos dentro de nós mesmos.



Fotos: Sibélia Zanon




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