Tempo de rachaduras

outubro 15, 2022

Ilustração de folhas secas na cor azul caídas no chão


“Depois de pensar algum tempo, um dos xeques levantou a mão, indicando para uma grande rachadura visível num dos blocos de pedra que formavam o teto.

Todos levantaram as cabeças e viram a fenda na pedra, que parecia perigosa.

— Parece como se o teto estivesse rachado, murmurou o rei de Sabá.

Logo depois, porém, ele olhou sorrindo para Pyramon e perguntou o que isso significava.

— Uma rachadura numa construção tão perfeitamente executada, certamente indica algum acontecimento!

Pyramon deu-lhe razão e olhou um momento para o teto, dizendo a seguir que essa rachadura indicava um acontecimento que ocorreria 2.500 anos mais tarde.

— Deve tratar-se de um gravíssimo delito da humanidade, pois as respectivas profecias dizem que os efeitos disso serão sentidos até as alturas máximas.

— O trabalho dos gigantes é insuperável. Essa rachadura parece um corte na pedra, disse um dos visitantes com admiração.”

Roselis von Sass,A Grande Pirâmide Revela seu Segredo


Uma pipa no céu... Lembro-me da alegria da subida e do vento, da sensação de liberdade enquanto ela ganhava os ares. Lembro-me também da linha. A pipa, parecendo tão livre e solta, estava na realidade bem presa por um fio sob tensão.

Situações extremas têm sido cada vez mais frequentes e atingem diferentes esferas: a natureza, a saúde, a família, os posicionamentos e opiniões, o interior de cada um. Cada vez mais pungentes, elas cutucam lugares sensíveis, induzindo a uma revisão. Escolhas, certezas e valores fincados feito alicerce na construção de vida de cada um são revisitados e questionados.

A observação que fazemos a respeito da trajetória que nos trouxe ao momento presente leva à reflexão: O que queremos conservar e o que não faz mais sentido? O que precisa ser solto, desprendido, deslocado? O que precisa de mais linha, de menos linha?

A soltura pode se dar de forma definitiva e levar à separação de um conceito, de uma condição, de um trabalho, de um hábito, de uma ou mais pessoas. Ou pode ainda deixar um fio preso, a possibilidade de retorno, de apego, de tensão, como acontece com a pipa.

Soltar-se daquilo que não faz mais sentido pode ser radical, pode causar dor, pode parecer pouco popular. Soltar aquilo que já é familiar é um ato de coragem, um salto para o que ainda não se desenha com clareza no horizonte. Toda ruptura causa incômodo, alguma apreensão, mas o fato é que vivemos num tempo de rachaduras.

No livro A Planta do Mundo, Stefano Mancuso conta que a madeira ideal para a criação de tábuas harmônicas, dignas dos violinos Stradivarius, crescem sob condições específicas: em altitude considerável, em declives, voltadas para o norte e... em solos pobres. O abeto-vermelho produz a chamada madeira de ressonância, que conduz o som por minúsculos canais resiníferos, que ficam ocos com o envelhecimento, permitindo a vibração do ar em seu interior.

Solos pobres produzem a madeira ideal para os mais nobres instrumentos. Podem os solos pobres, as rachaduras, as situações extremas ser impulso, convite também para o enobrecimento humano? A coragem para analisar, discernir o que já não agrega e romper com alguma condição costumeira pode exigir o cultivo de um lastro interior de confiança, o qual se sedimenta numa convicção cada vez mais nítida.

Vejo pela cidade os ipês – floridos como nunca. A cada novo ano parece ser a primeira vez. Será que no ano passado ficaram tão lindos como agora? Um ápice de extrema exuberância e, em pouco, a árvore solta as flores, sem manter nenhum fio. Os ipês sabem se desprender da sua beleza. Quando as flores caem, desenham tapetes ao invés de chorar. Confiam em si mesmos e nas condições que a vida oferece para criar uma nova florada.



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