Significado feito à mão

Outubro 30, 2012


Daniela Schmitz Wortmeyer




Eu saltitava pela casa da minha avó com uma boneca nos braços, inventando histórias, até que resolvi esticar o percurso para dentro da sala onde ela trabalhava. Como outras vezes, fiquei olhando o meticuloso trabalho na máquina de costura, mas dessa vez o pedido saiu num impulso: “Oma, faz um vestido pra minha boneca?” E com a mesma naturalidade, ela sorriu e começou a separar os retalhos de tecido: um retalho rendado roxo forte para o corpo do vestido, um pedaço de tule branco para a saia, uma rendinha branca para o acabamento no decote... Eu observava a habilidade com que minha avó fazia surgir aquele vestido, como num passe de mágica. Vi diante de mim um traje de princesa, daquelas dos contos de fada que povoavam minha imaginação. Daí para frente, aquele passou a ser o vestido preferido, inigualável, guardado sempre em lugar de destaque.

Anos depois, eu era professora de educação infantil e fazíamos pão: analisamos a receita, medimos os ingredientes, misturamos a massa, por fim cada criança modelou um pãozinho redondo. Colocamos todos os pães em uma forma e observamos a transformação da massa ao assar, em um forno elétrico cuidadosamente instalado na sala de aula. Após retirar as “obras” do forno e esperar esfriar, era hora de comer. Porém o Andrey, um menino de quatro anos, pediu: “Tia, posso levar pra casa?” Então embrulhou seu pão com todo o zelo em guardanapos e o guardou em sua gavetinha de material. Ao chegar a mãe ao final da aula para buscá-lo, foi correndo apanhar sua preciosidade: “Mãe, olha o que eu fiz!”, com olhos brilhantes deu-lhe sua criação de presente. No dia seguinte, ela me pedia a receita: o Andrey queria que fizessem em casa, pois aquele era o pão mais gostoso que já tinha provado...

Costurar, fazer pão... Atividades simples, artesanais, cotidianas, que ganharam densos significados. As duas histórias narradas remetem à infância. Parece que nessa fase da vida estamos mais atentos ao mistério das coisas. A arte-educadora Edith Derdyk, no livro Formas de Pensar o Desenho, observa: “A criança é um ser em contínuo movimento. Este estado de eterna transformação física, perceptiva, psíquica, emocional e cognitiva promove na criança um espírito curioso, atento, experimental. Seu olhar aventureiro espreita o mundo a ser conquistado. Vive em estado de encantamento diante dos objetos, das pessoas e das situações que a rodeiam.”

Porém: “Gente grande é diferente. É produto acabado, conhece seus limites, cresce dentro de uma roupa que se torna cada vez mais apertada. A vida sedentária lhe dá ares envelhecidos. O passado é memória acumulada: fatos inegáveis. O futuro é um rio de margens feitas. O presente são representações de afirmações. [...] O tempo é cerceado pelo cotidiano. A imensidão do céu já não a afeta tanto física nem existencialmente.”

Com o passar dos anos, distanciamo-nos afetivamente de nossos fazeres, deixando de descobrir e criar, atuando mecanicamente na esperança da chegada do próximo fim de semana... E quando ele chega, por vezes mergulhamos em um novo turbilhão, buscando diferentes tipos de estímulos como “distração”. Então permanecemos de fato distraídos, novamente desconectados de nós mesmos, do aqui e agora onde poderíamos viver experiências reais e significativas.

Para Edith Derdyk, “A criança está integralmente presente em tudo o que faz, principalmente quando existe um espaço emocional que o permita.” Para encontrar significado no cotidiano, é preciso estar atento aos pequenos fatos. Olhar para os processos que estão por trás dos resultados. Descobrir o milagre escondido em cada atividade humana e da Natureza.




As arte-terapeutas Sara Païn e Gladys Jarreau, no livro Teoria e Técnica da Arte-Terapia, realçam o processo subjacente às obras humanas: “A criação de um objeto é sempre uma aventura, um desafio dramático no qual sujeito é o autor. É preciso vencer a matéria, fazer sair a forma a partir do amorfo, é preciso tirar um sentido daquilo que não tem nenhum. A folha branca, a terra bruta, representando ao mesmo tempo o vazio, a continuidade do nada e a totalidade do poder, isto é, a enorme dimensão do possível antes que o real não o toque. É preciso encontrar rápido um objeto para limitar o real ou confiar bem na capacidade de espera de maneira a deixar vir a imagem da forma que o tudo e o nada tomam para cada indivíduo.”

Contudo, toda essa riqueza passa despercebida quando vivemos distraídos... Quantas vezes nos damos conta de processos corriqueiros como a nossa própria respiração? Através dela poderíamos nos descobrir conectados com a pulsação do Universo, com o permanente movimento de dar e receber que sustenta a Vida em suas múltiplas manifestações... Se analisarmos objetivamente, veremos que os mesmos processos básicos, que nos faziam sentir vitalidade e encantamento na infância, continuam em andamento. Porém, a maioria de nós perdeu paulatinamente a consciência que costuma acompanhar os inícios, as primeiras experiências. Por isso muitas vezes não enxergamos o profundo significado de cada pequeno gesto, seja material ou imaterial, que preenche nossos dias.

O escritor Abdruschin aconselha: “Volte-se à simplicidade no pensar! Do contrário, ninguém poderá compreender a grandeza plenamente, e por isso jamais alcançá-la. Pensar simplesmente como as crianças!” Quem sabe a solução para os graves problemas existenciais da humanidade passe pelo resgate da simplicidade: a porta para vivenciar alegremente o valor que repousa na essência de todas as coisas.





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