Pequenos faróis

maio 17, 2017

desenho de uma flor

 

Sibélia Zanon

 

Foi num sábado cedinho que me encontrei com ela. Branca. Iluminada por mínimos faróis amarelos. De dentro para fora. E em meio aos faróis, uma estrela potente. Muitas e muitas pétalas delicadas e fortes – sim, porque delicadeza não significa necessariamente fragilidade – protegiam os pequenos faróis. Não é à toa que um de seus nomes populares é “Rainha da Noite”. Em alguns minutos, o sol bateria diretamente em suas pétalas e em poucas horas ela se fecharia para o mundo. E naqueles momentos em que fiquei ali e vi as abelhas trabalharem, tive a impressão de estar dentro de um quadro, de uma pintura clássica, de um retrato da harmonia, de um segundo imortal. Aquele encontro era a harmonia invadindo o meu dia.

A natureza encanta ao materializar a harmonia em muitas de suas relações. O mutualismo, relação biológica em que não há perdedores, pode ser visto, por exemplo, na polinização. Insetos, mamíferos e aves obtêm alimentos, como néctar e frutos. Em troca, realizam a dispersão do pólen e das sementes. Além da abelha e da flor, o ser humano também sai ganhando com a propagação do alimento na natureza.

Da mesma forma, a harmonia também caminha por outras áreas. Entre tantas artes, a música é dadivosa ao evidenciar a harmonia. Quando não há apenas dissonância, mas um acorde principal regente que conduz e direciona a melodia, a harmonia se faz escutar.

E qual seria a nossa participação nessa música do mundo? E nas harmonias e dissonâncias da vida cotidiana? Participamos mais do que imaginamos. Assim como as dezenas de pequenos faróis da Rainha da Noite, nós também temos nossos próprios faróis. E muitas vezes, nas ações sutis, acendemos uma pequena luz. Quando cuidamos insistente e repetidamente de algumas questões, esse cultivo pode tornar-se uma forma de viver que se traduz num exercício de mais harmonias e menos dissonâncias.

Recusar pensamentos de rancor e ódio faz um farol acender. Fazer da palavra um instrumento de coerência, falando apenas o que confere com aquilo que se sente e pensa e, ainda, sustentando o que se fala, é mais um farol aceso. Buscar entender o que vem do outro e cuidar para não feri-lo com nosso modo de ser e agir são outros tantos faróis acesos. Cada vez que surge um desafio sobre o qual a reação descuidada seria um xingamento e uma porção de ódio destilada para o mundo, a reação cuidada pode ser geradora de harmonia. A influência disso não se traduz apenas num perímetro particular, mas também no global, porque muitos pequenos faróis acesos incandescem a harmonia do mundo, ao contrário de muitos faróis apagados ou mesmo queimados e sem conserto.

É bem verdade que há ambientes em que é difícil exercitar a harmonia, pode não ser possível experimentar a harmonia coletiva. Mas, individualmente, cada um pode exercitar a sua postura dentro de cada situação. Isso não significa que harmonia seja sinônimo de passividade ou de um encolhimento da maneira de ser pessoal. Mas é a busca do equilíbrio, que colabora ao invés de agredir. E, aqui entre nós, o mundo já está abundante em agressão e carente de gestos de profunda harmonia.

 Se cada um buscar esses pequenos encontros com a harmonia, seja no pensamento, na fala ou na ação, em algum momento essas pessoas se transformarão em um ser propagador de harmonia porque, querendo ou não, sempre acabamos exalando aquilo que somos de verdade, lá no íntimo, bem do lado de dentro. E é difícil esconder uma multidão de pequenos faróis acesos. Aprendi com a Rainha da Noite.



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