Os guardiões

julho 13, 2024


"'Estás vendo
Gauê. Ele também foi enviado por um poder superior. E, na verdade, como guardião de crianças. Foram enviados dois ao mesmo tempo. O segundo guardião chama-se Kintos. Ambos os guardiões só apareceram quando a maioria das crianças tinha mais de cinco anos de idade. Antes as babais – pode-se dizer também ‘mães primitivas’ – faziam tudo o que era possível para as crianças, a quem amavam acima de tudo.'

Sempre um de nós acompanha agora as crianças que hoje já estão com mais de dez anos’, explicou Gauê, 'e que, para a sua idade, já enfrentam a vida de modo muito independente. Permanecemos, logicamente, sempre invisíveis. Contudo, as crianças sabem, geralmente quando percorrem longas distâncias, que nós nos encontramos nas proximidades. Todas elas têm pequenas cornetas, com as quais podem nos chamar ao necessitarem de alguma informação.'

'Em suas caminhadas sempre encontram tubérculos da terra ou frutas que ainda não conhecem. Também há favos, pendurados em galhos baixos de determinadas árvores. Esses favos contêm um líquido viscoso, semelhante ao melado. Há também grandes folhas, macias como veludo, com as quais podem fazer cobertores. Quando encontram novos alimentos, folhas e outras coisas que não conhecem, tocam suas cornetas para chamar Gauê ou Kintos, que conhecem tudo o que há na Terra', explicou Licos.

'Para todas as regiões, onde as crianças humanas já têm mais de cinco anos de idade, chegam dois guardiões ou protetores, que as auxiliam a encontrar os alimentos certos e também as folhas e espécies de junco que lhes possam servir de roupas e
móveis', disse Kintos.

'Nossa roupa é colorida por causa das crianças, pois o vermelho elas logo enxergam, já que tudo em redor é verde', acrescentou Gauê."

Roselis von Sass, O Nascimento da Terra


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Sibélia Zanon

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A cicatriz indica o local onde um dia esteve implantado um cordão umbilical, rio trafegando sais minerais, vitaminas, oxigênio e glicose entre mãe e feto — porta para a vida.

“O umbigo marca nossa ligação com a Terra e com todos os seres vivos, e não apenas com o corpo de nossa mãe”, sugere o filósofo Emanuele Coccia.

Assim como o umbigo, também o ato de cuidar é gerador da vida. Sem o cuidado não haveria sobreviventes: o primeiro choro inaugura a dependência radical por um provedor de afeto e leite. E essa dependência, palavra culturalmente carregada de estigma e negatividade, faz-se alicerce para a potência e o desenvolvimento.

Com o alicerce desenhado, somos convidados a ousar passos de independência.

E, embora tais passos sejam saudáveis e necessários, a ode à autonomia costuma ofuscar o sortimento de cuidados que nos cercam ao longo de toda a vida — muitas vezes expressos na simplicidade generosa de uma palavra ou de um prato de comida quente.

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