Lixo: o que ele reflete sobre nós?

Julho 23, 2012


Daniela Schmitz Wortmeyer


Sempre que passávamos de carro por aquele parque, eu pensava: “temos que vir fazer um piquenique debaixo dessas árvores”. Idealizava um domingo de manhã reservado à contemplação, com direito a café com leite e pão de queijo, ouvindo o canto dos passarinhos e o vento acariciando as folhas. Sentia-me privilegiada em morar em uma cidade onde há extensos parques públicos - uma raridade em nosso País - e finalmente resolvi usufruir dessa possibilidade. Munidos de máquina fotográfica, quitutes e protetor solar, lá fomos nós concretizar o tão sonhado “domingo no parque”. Porém, ao chegar perto das maravilhosas árvores, percebemos algo que não se via de dentro do carro: lixo, muito lixo, distribuído por todos os lugares onde se poderia fazer uma parada.

Embalagens de alimentos, papéis sujos, restos de cigarros e até preservativos usados se misturavam à relva sob a copa das árvores, pisoteados e meio camuflados na paisagem. Apenas ao chegar perto se conseguia distinguir a gravidade da situação, de modo que caminhamos muito até encontrar um local menos sujo para nos instalarmos. Diante desse triste quadro, fiquei pensando: “Como pode alguém sujar um lugar tão belo? Será que as pessoas calculam como ficará esse parque, construído para o lazer delas próprias, com o acúmulo de lixo? Por que em alguns lugares do mundo o espaço público é visto como ‘terra de ninguém’, em vez de ser abraçado por todos?”

Lembrei-me da época em que fazíamos caminhadas nas matas. Era fácil saber se alguma pessoa havia passado em uma trilha antes de nós: a maioria deixa um rastro de lixo, mesmo em locais ermos e de difícil acesso. Também nas ruas das cidades, o bicho-homem deixa a marca de sua insensatez pelos resíduos abandonados. Na clássica obra “Fim do futuro? Manifesto ecológico brasileiro”, o ambientalista José Antônio Lutzenberger afirma que: “O homem moderno (...) tornou-se incapaz de sentir profundamente o belo, não se incomoda com a feiura, com o lixo e a agressão na paisagem, falta-lhe a ânsia de alcançar a harmonia em torno de si.”

“Falta-lhe a ânsia de alcançar a harmonia em torno de si.” Detive-me nessa frase e fui procurar a origem da palavra harmonia no Dicionário Houaiss. Vem do grego harmonia, que significa união, encaixe, acordo, ordem. Está relacionada ao princípio da unidade. Diante disso, cogitei que talvez os “jogadores de lixo” contumazes não se percebam unidos ao ambiente que os circunda, portanto não lhes faz sentido buscar uma harmonização. Não consideram que a embalagem plástica que deixam para trás não irá se deteriorar instantaneamente. Sequer atinam os prejuízos que esse pequeno gesto trará ao meio ambiente, afetando toda uma cadeia de seres vivos e, finalmente, os próprios seres humanos.

Para o físico Fritjof Capra, no livro “O Tao da Física”, atitudes como essa são reflexos de uma visão fragmentária construída pela humanidade ao longo dos últimos séculos: “A crença de que todos esses fragmentos – em nós mesmos, em nosso ambiente e em nossa sociedade – são efetivamente isolados pode ser encarada como a razão essencial para a atual série de crises sociais, ecológicas e culturais. Essa crença tem nos alienado da natureza e dos demais seres humanos, gerando uma distribuição absurdamente injusta de recursos naturais e dando origem à desordem econômica e política, a uma onda crescente de violência (espontânea e institucionalizada) e a um meio ambiente feio e poluído, no qual a vida não raro se torna física e mentalmente insalubre.”

Diversos religiosos, sábios e cientistas constataram, através dos tempos, que a ideia de fragmentação, separação ou isolamento entre os elementos que compõem o Universo é uma ilusão, decorrente de uma percepção superficial dos fenômenos da vida. Na realidade não estamos separados, mas unidos a tudo e a todos, em um colossal sistema de influências recíprocas. Até mesmo nossas menores ações ecoam sobre o todo, circulando e retornando em seus efeitos ao ponto original. Isto é, ainda que sequer nos lembremos de certos atos praticados, somos responsáveis pelas consequências, como alerta o escritor Abdruschin: “Em cada querer inicial o ser humano produziu e criou algo, no qual ele mesmo, mais tarde, em prazo curto ou longo, terá de viver.”

Minhas reflexões alcançaram os “lixos” menos visíveis que produzimos cotidianamente: palavras inconsequentes, atitudes mesquinhas, sentimentos conturbados, pensamentos confusos e perniciosos... Resíduos perigosos deixados pelos caminhos do mundo. Se não forem tratados a tempo, geram sofrimento e deterioração de nosso ambiente humano, assim como ocorre com os dejetos materiais descartados de forma negligente.

Se o visível reflete o invisível, como ensinam antigas tradições, a poluição que cresce a olhos vistos em nosso mundo pode ser encarada como reflexo de um “ambiente invisível” pouco limpo. Um somatório de inúmeras escolhas desarmoniosas, de formas de pensar, sentir e agir que não contribuem para a elevação do ser humano e dos demais seres que habitam o Planeta, mas para sua destruição.

Assim, o lixo nos espaços públicos é apenas uma expressão palpável da alienação em que nos encontramos, que nos torna indiferentes à feiura, ao lixo e à agressão na paisagem, como observou Lutzenberger. Com o hábito de focalizar apenas interesses imediatos, parece que perdemos a consciência de que hoje lançamos as sementes de nosso futuro. Se no momento presente já vemos tanta desarmonia ao nosso redor, o que será do amanhã?

Para sermos novamente capazes de sentir profundamente o belo e de buscar a harmonia em nosso ambiente, acredito que o primeiro passo seja harmonizar a paisagem de nossa própria alma - transformando o incômodo lixo no adubo que alimenta as flores da virtude. A esse respeito, há 2.400 anos o sábio Platão ensinava: “A harmonia se obtém pela virtude.”


“Os teus homens não têm juízo
Esqueceram tão grande amor
Ofereces os teus tesouros
Mas ninguém dá o teu valor.
Terra, Terra eu sou teu filho
Como as plantas e os animais
Só ao teu chão eu me entrego
Com amor, firmo tua paz.”

(Estrelada, Milton Nascimento)




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Roselis von Sass, O Nascimento da Terra

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