Em busca de Shangri-la

Julho 02, 2012


Sibélia Zanon


Às vezes me sinto cansada desta época, em que o telejornal consegue ser mais assustador do que um filme de terror. Arrisco-me numa realidade imaginada, daquelas que só os poetas sabem explicar. “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada”, brinca Clarice Lispector.

Há os que buscam a realidade sonhada em Shangri-la, Ítaca ou Pasárgada. Manuel Bandeira já avisava: “Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei”. A literatura, o cinema, a música, as artes em suas variadas formas nos ajudam a mudar muitas vezes o canal, nos ajudam a sair da frequência do telejornal e a experimentar uma viagem. Mas como toda viagem, essa também tem fim.

O perigo acontece quando não queremos voltar. Neste caso seguimos, infelizes, sonhando. Desajustados dentro da própria pele, nos sentimos vitimizados por um mundo que não nos ama. Somos nocauteados pela vida que não nos oferece atalhos até Shangri-la. Sonhamos de uma forma tão irreal que ficamos paralisados, sem conseguir dar um próximo passo.

Para muitos, um assim inocente sonhador já atua diretamente pela conversa, como um veneno de ação lenta, corroendo, destruindo, pois ele é capaz de desviá-los da vida terrena normal, e com isso sadia, com suas explanações de ideias, para conduzi-los ao reino daquilo que é impróprio, irreal para a existência terrena.

Note-se bem: eu não digo que um tal sonhador seja impuro ou mesmo ruim, ao contrário. Pode ele querer o melhor, mas sempre o desejará de modo irreal para a Terra, de praticabilidade impossível, e dessa forma não atua para a existência terrena de modo benéfico, mas sim dificultando, destruindo”, considera o escritor Abdruschin, em Na Luz da Verdade.

Em uma entrevista à revista Veja, o filósofo inglês Roger Scruton faz uma crítica ao otimismo exacerbado: “Não falo do otimismo como virtude, nem da esperança ou da fé, que servem para a elevação espiritual do indivíduo e fomentam inovações e avanços. O otimismo prejudicial é o desmedido ou, como disse o filósofo Arthur Schopenhauer, o otimismo mal-intencionado, não escrupuloso. É o tipo de pensamento que está por trás de todas as tentativas radicais de transformar o mundo, de superar as dificuldades e perturbações típicas da humanidade por meio do ajuste em larga escala, de uma solução ingênua e utópica, como o comunismo, o fascismo e o nazismo”.

Se corremos o risco de um sonhar paralisante e de um otimismo utópico - e não queremos cair no conformismo insosso que nos transmutaria no inseto de Kafka - o que nos resta?

Para sonhar com alguma chance de realização é preciso partir do entendimento de que a realidade que se tem em mãos é a única disponível e para chegar até a Shangri-la desejada vamos ter que levantar do sofá e suar a camisa. Talvez seja necessário desobstruir as ruas para poder passar, talvez seja necessário tirar o peso excessivo da mochila e reciclar conceitos e pensamentos.

Segundo Abdruschin, aqueles que buscam por ideais são os “que têm em mira, sim, um alvo grande, muitas vezes grandioso, nunca chegando aí, porém, a fantasias, antes se firmam solidamente na vida terrena com ambos os pés, a fim de não se perderem naquilo que é irreal na Terra. Esforçam-se, degrau por degrau, por atingir o alvo amplamente planejado com visão sadia e mãos habilidosas, sem, entrementes, prejudicar outras pessoas que não merecem”.

Sonhar com os pés na realidade pode dar trabalho, mas é isso que vai nos tornando mais leves para uma viagem tão longa e difícil como parece ser o caminho até Shangri-la. Reserve os sonhos inconsequentes para vivê-los no cinema e na literatura e depois volte. A realidade precisa de cada um de nós.


"Não percas Ítaca de vista,

pois chegar lá é o teu destino.

Mas não apresses os teus passos;

é melhor que a jornada demore muitos anos

e o teu barco só ancore na ilha

quando já estiveres enriquecido

com o que conheceste no caminho.


Não esperes que Ítaca te dê mais riquezas.

Ítaca já te deu uma bela viagem;

sem Ítaca, jamais terias partido.

Ela já te deu tudo, e nada mais te pode dar.


Se, no final, achares que Ítaca é pobre,

não penses que ela te enganou.

Porque te tornaste um sábio, viveste uma vida intensa,

e este é o significado de Ítaca." 

Konstantinos Kavafis




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