Entes invisíveis

janeiro 23, 2024

Hastes de trigo ao vento com céu azul ao fundo

"O que se teria passado naquela alma, nesse instante, ninguém  sabe. O certo é que o ladrão se voltou imediatamente para o príncipe  e perguntou: 
— Queres que eu te leve para um abrigo qualquer, onde possas  receber alimento? 
No modo de olhar do ferido, o homem adivinhou a resposta  e, erguendo em seus possantes braços o corpo quase inanimado do príncipe, carregou-o para fora da mata. 
Quando Siddharta voltou a si, viu-se deitado sobre uma pele,  dentro de uma caverna pouco espaçosa. Junto dele havia uma vasilha grande com chá e vários alimentos, espalhados sobre uma pedra, a  seu alcance. O príncipe, porém, sentia-se tão fraco, que sequer podia  alcançar o que comer e o que beber. 
Novas e incríveis provações. O tal homem devia tê-lo despojado de suas vestes, pois tiritava de frio. Passou os olhos pelo corpo e  viu que estava, efetivamente, coberto apenas de míseros, sórdidos  andrajos.
'Ó invisíveis, acaso me salvastes da morte imediata só com o fito  de me fazer sucumbir lentamente à míngua?' clamava o príncipe em  tom lamentoso, não mais com aquela arrogância de antes. 'Ajudai-me,  sim, ajudai-me ainda, vós a quem não conheço nem consigo ver, mas  em quem acredito, porque agora sei que vós existis!'"

Buddha,
Coleção o Mundo do Graal


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Esconde-esconde

julho 25, 2026


“Moluscos parecem seres felizes com sua concha protetora: escudo, esconderijo, disfarce. Inspirada nessa condição, fiz muitas vezes como se fosse um deles e brinquei de esconder, simplesmente desejando esquecer o caminho para a porta de saída da concha e não deixando também ninguém e nada entrar.

Ilusão. Mesmo fechando os acessos ao interior, permanecia uma...”

Sibélia Zanon, Espiando pela Fresta


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— Tua resposta foi correta. Teu pai, depois da morte, será espírito e alma. Não obstante, continuará a ser o mesmo. A perda do corpo terreno não modifica seu espírito e sua alma! Sentirá por ti o mesmo amor como até agora, e tu também sempre te lembrarás dele com amor. 

Roselis von Sass, Sabá.O País das Mil Fragrâncias

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Era um domingo à noite. Eu estava sozinha na sala, sentada no sofá, e já ia levantar-me para cuidar de alguns preparativos para o dia seguinte. Mas, subitamente, fui surpreendida por um perfume: intenso, inebriante, incontornável. Busquei na memória e encontrei: “jasmim”. Olhei para as persianas fechadas e me perguntei como aquele aroma as teria transposto; além disso, de onde poderia provir, pois não havia jasmineiros próximos ao prédio. Ainda assim, o perfume era real, indubitável — eu tinha certeza de que, em algum lugar, os jasmins existiam.

Meus pensamentos percorreram experiências semelhantes, em que algo intangível alcança a percepção, mas não se consegue identificar sua origem, ou mesmo comprovar sua existência. Um sentimento de afeto…

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