
Sibélia Zanon
A beleza é mandamento na asa de passarinho. Se assim não fosse, a cor não habitaria tanta pena. Planando em altura e com leveza, a beleza é arrebatamento – um horizonte se deita sob suas asas.
A beleza chega a ser pungente – pulsa e se faz reconhecer fácil e intimamente. É essência e necessidade numa vida que busca inteirezas.
Por ser tão forte, chega a provocar desconforto ao revelar a ferida. Deflagra aquilo que o cotidiano – coberto com um manto tecido de dor e breu – não consegue ser. Ao iluminar a penumbra costumeira, a beleza constitui-se num lembrete da escassez e pode fazer doer uma saudade. O que parecia conforto passa a ser incômodo.
Almejada como voo alto, a beleza é grandiosa quando encarnada na arte de notas musicais, pincéis e letras. Mas a beleza minúscula, aquela que está ao alcance, já guarda o poder da fagulha que rasga o breu.
“Muito do que é dito sobre a beleza e sobre sua importância em nossas vidas ignora a beleza mínima de uma rua despretensiosa, de um bom par de sapatos ou de um pedaço refinado de papel de presente; é como se essas coisas pertencessem a uma ordem de valor distinta da ordem de valor de uma igreja construída por Bramante ou de um soneto escrito por Shakespeare”, escreve o filósofo Roger Scruton no livroBeleza.
A conexão com a beleza é ativa, revela a resistência da alma ante a certeza da pressa e do pragmatismo. Pode tornar grande o que parece pequeno, fazer extraordinária uma ação ordinária.
“Essas belezas mínimas são muito mais importantes para a nossa vida cotidiana do que as grandes obras que (se tivermos sorte) ocupam nossas horas de lazer”, continua Scruton.
A beleza é por si só. A flor é uma flor apenas por ser – pouco importa se é ou não admirada. No entanto, num mundo vivo, tudo é interação. A cor clama por ser visitada – num retrato da lei da ação e reação as anteras ofertam o polén, instigando o polinizador a trabalhar a continuidade.
A beleza verdadeira escapa ao julgamento dos olhos e pousa em gestos, silêncios, doação de si. É como se apossar da potência do próprio botão e levá-lo à florescência. Cuidar de uma beleza mínima, qualquer que seja, é semear um quinhão de doação ao mundo.
E cada ser é um botão único. Também cada povo constitui seu próprio jardim singular, sem necessidade de comparar-se a canteiros vizinhos. Diferentes jardins têm diferentes expressões de beleza.
“Unicamente o soerguimento da própria cultura constitui verdadeiro progresso para cada povo!”, escreve Abdruschin emNa Luz da Verdade, ressaltando a importância da florescência dentro da própria essência e potencialidade.
Com lã grossa e encorpada, as barras decoradas com franjas, os ponchos de panos costurados com cordões eram as vestimentas mais importantes dos Incas. Com andar ereto e orgulhoso, o povo chamava a atenção.
“Os incas eram, em todas as fases de suas vidas, de extraordinária beleza. A força luminosa de seus espíritos superiores e a pureza de suas almas expressavam-se em seus corpos terrenos”, escreve Roselis von Sass emA Verdade sobre os Incas.
Por vezes, a beleza vem de lugares diferentes daqueles que se pode captar com os olhos. Ela emana de profundidades abaixo da pele. Por isso, reconhecer e praticar a beleza verdadeira pode implicar em despir-se de prejulgamentos, como quem tira os filtros que já não agregam valor artístico à foto. Captura-se, assim, a beleza com os sentidos desprevenidos e não com os filtros de crenças construídas culturalmente.
Como um despertar do automatismo cotidiano, a beleza comove, é bálsamo, elevação e respiro. É oportunidade de sair do chão e pousar a alma demoradamente na asa de um passarinho.

Você já se perguntou de que ponto do planeta se originou a humanidade?
Durante muito tempo, a ciência acreditou que o ser humano moderno havia surgido em um único "berço da humanidade", no leste da África.
Mas novas descobertas mudaram esse cenário.

“Há três milhões de anos nossa Terra parecia um paraíso de beleza tropical. O clima quente e uniforme, que reinava naquele tempo por toda a parte, favorecia o crescimento de maneira inimaginável. A multiplicidade da riqueza animal e vegetal era quase indescritível.
Bem ao norte, onde hoje se encontram as regiões cobertas de gelo, cresciam..."
Roselis vonSass, Os Primeiros Seres Humanos

“Ao mesmo tempo em que a alma de Mirani deixava seu corpo adormecido e corria ao encontro dele, procurando-o, Tenosique estava recostado num bloco de rocha no Monte da Lua, escutando as vozes da noite. Corujas gigantes e falcões noturnos saíam de suas fendas nas rochas, circundando-o em vôo silencioso. Bem embaixo brilhava o rio dos ursos, na luz da lua que subia. Diante das cabanas das poucas famílias runcas, que moravam lá embaixo, crepitavam algumas fogueiras.”
Roselis von Sass, A Verdade Sobre os Incas