A chegada

Outubro 06, 2012


Daniela Schmitz Wortmeyer 



Antes mesmo de ser anunciada, ela já era intensamente pressentida e esperada. Havia algo no movimento dos pássaros, um clima de expectativa, o ar parado. Nas árvores foi preparada a recepção com exuberantes floradas: primeiro os ipês roxos e cor-de-rosa, depois os amarelos e os brancos, patas-de-vaca com suas quase-orquídeas perfumadas, buganvílias multicoloridas e jacarandás-mimosos com seu tom lilás solene... Então veio a chuva, no momento perfeito: uma cachoeira decidida, penetrando na terra seca e nos corações expectantes. Brados de alegria foram ouvidos ao começar o banho de purificação. Naquela noite, eu também esperava pela mudança que viria. Tudo conspirou para uma preparação em grande estilo: haveria um concerto de música barroca, com solos profundos de violoncelo sucedidos por luminosas sonatas acompanhadas por um cravo do século XVIII e um pungente violino... Era sem dúvida uma noite de gala. Na manhã seguinte, passarinhos em festa: toda a Natureza respirava purificada o ar fresco da boa nova. E quando ela chegou, tive vontade de lançar sementes na terra úmida em sagrada devoção. Quis celebrar aquela chegada: por alguns instantes ansiei me juntar à tua majestosa comitiva, Primavera! Quis oferecer-te meu humilde e inseguro gesto por novas flores. Qual criança com olhos brilhantes erguidos para o espetáculo, sonhei entrar na dança e participar do poderoso fluxo de renovação da vida!

Foto: Charles Wortmeyer


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