Sobre sapatos e pegadas

setembro 10, 2015

Sibélia Zanon


Uma amiga me contou que, quando pequena, sempre usava as roupas da irmã mais velha. Porém, seu pai nunca quis que ela herdasse os sapatos da irmã. Ele acreditava que cada pessoa desenvolve seus pés de uma forma toda particular, moldando sua própria fôrma. Nunca a pisada de uma seria igual à da outra. Por isso, ela sempre teve sapatos novos.

Cada pé com o seu sapato. É assim que nos desenvolvemos e seguimos, dentro dos nossos próprios moldes. Mas, e se experimentarmos algo diferente, mesmo que por curto tempo? Num evento para educadores, a palestrante pediu que todos tirassem os sapatos e colocassem no meio da roda. Depois, cada um foi convidado a escolher qualquer par do centro, desde que não fosse o seu. Eles calçaram os sapatos alheios e deram uma voltinha pela sala. O caminhar desengonçado e manco mostrou o óbvio: pode não ser nada fácil entender os passos do outro. Como entender a sua dor, as suas escolhas, as ações e as reações, por vezes tão estranhas?

Entre 1979 e 1982, Patricia Moore se lançou num experimento ousado. Recém-formada em design,com 26 anos na época, vestiu-se como uma senhora de mais de 80 anos e submeteu-se a diversas experiências para poder sentir, na própria pele, quais eram as dificuldades encontradas em atividades cotidianas, como pegar um ônibus cheio, fazer compras num mercado, subir a escada íngreme

do metrô.

A designerhavia perguntado aosseus colegas de trabalho se seria possível desenvolver uma geladeira que fosse facilmente aberta por uma pessoa com artrite. Um de seus colegas respondeu, com desdém, que eles não faziam designpara essas pessoas. Ela não gostou da resposta e lançou-se na vivência que fez com que desenvolvesse, mais tarde, diversos produtos inovadores, que puderam ser usados por pessoas idosas, inclusive aquelas com artrite. Patricia ficou conhecida como fundadora do design inclusivo, que se ocupa com o desenvolvimento de produtos para todos os tipos de pessoas.

Naturalmente, não se supõe que a única forma de exercer a empatia é por meio de um experimento de imersão radical. Imaginar-se no lugar do outro pode se transformar num exercício cotidiano, capaz de mudar a forma de sentir a realidade e de se relacionar. Assim, muitas áreas buscam agregar a empatia em suas práticas, como é o caso da medicina, no que se refere à relação do profissional da saúde com o paciente. Também nas relações empresariais, fala-se em design thinking,uma nova forma de desenvolver soluções, que trabalha com empatia, colaboração e experimentação, tendo como princípio a inovação voltada para as necessidades reais das pessoas.

No livro O poder da empatia – a arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo,Roman Krznaric, historiador e membro fundador da The School of Lifede Londres, diferencia a empatia da sensação de piedade ou de pesar, pois as últimas não implicam necessariamente na tentativa de compreender o ponto de vista da outra pessoa.

Contudo, pode-se dizer que há 
uma conexão significativa entre
 a empatia e a misericórdia. Familiarizar-se com a dor alheia e
 colocar-se no lugar do outro faz com
 que surja a disposição de ajudar. 
Para Matthieu Ricard, doutor em 
genética molecular e monge budista, enquanto a empatia nos alerta para o sofrimento 
do outro, o amor altruísta e a misericórdia são sentimentos positivos que colaboram para o auxílio ao próximo e a melhoria nas relações.

“Com vossa maneira de ser, deveis dar ao vosso próximo!”,escreve Abdruschin em Na Luz da Verdade.Dar-se no convívio, na consideração, no respeito e também ao covivenciar o sofrimento do outro.



Povos antigos tinham uma conexão com o tema, como mostra o trecho de Sabá, o País das Mil Fragrâncias,de Roselis von Sass:

E se realmente tivéssemos a capacidade de ver com os olhos de outra pessoa? E de experimentar o mundo com a sensibilidade de uma terceira? Teríamos mais facilidade em nos relacionar e mais cuidado ao julgar?




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