Quanto valem os valores?

maio 23, 2016

Sibélia Zanon



Na mesa do restaurante, um casal 
jovem conversa animadamente
 enquanto uma criança pequena perambula pelo salão, sem maior vigilância dos pais. A criança aproxima-se 
da mesa do casal, salta para cima do 
banco de couro vermelho em que eles 
estão sentados, desce, circula ao redor 
da mesa. Sua pequena estatura transforma a quina da mesa numa ameaça. 
A moça, mais interessada na conversa
do namorado do que na criança desconhecida, ignora a situação, mas não 
ignora o gesto do rapaz. Preocupado, 
ele olha para a criança e envolve a quina ameaçadora com a sua mão. O gesto chama atenção da moça, que passa a ver no namorado alguém que se importa. Talvez um potencial pai. Sem saber, naquele jantar ele ganhou pontos no amor.

Valores permeiam as relações. Importar-se e cuidar do outro, assim como exercer a gentileza, podem fazer parte do conjunto de valores de uma pessoa. Longe de serem objetos mensuráveis ou facilmente substituídos, os valores são parte da cultura e da natureza mais íntima de cada um, moldando a sua personalidade
 e determinando sua forma de interação com o outro e com o todo.

Ainda que pareçam universais, os valores não deixam de ser vestidos de roupagem individual, na medida em que cada pessoa empresta um pouco de si ao exercitá-los. Assim como o rapaz mostrou um jeito particular de se importar e proteger, vestindo o valor, pode haver casos em que os valores parecem mais terem sido despidos do que vestidos. Quando se faz mau uso de um valor, por exemplo, exercitando-o de forma a camuflar outras intenções, ele fica despido de seu significado original. Assim, quando alguém tem uma atitude ecologicamente correta, intencionando apenas melhorar sua imagem perante um grupo social ou comercialmente, em vez de agir por princípio ou convicção, perde a chance de usufruir completamente dos benefícios daquilo que fez; porque, na medida em que camufla intenções e despe um valor de sua essência, fica também órfão da conexão com tudo o que se relaciona àquele valor. Valores exigem autenticidade. Por isso, também o exercício do politicamente correto pelo politicamente correto, e não por princípio, tem baixo valor.

Valores são, então, feito partículas soltas aguardando por serem potencializadas. Partículas isoladas podem não ter a força de constituir um castelo, mas ao passo que cada pessoa abraça e potencializa valores, elas se transformam numa fortaleza.

Salientar determinados valores é uma preocupação dos pais, e externar um valor não é mais do que mostrar para alguém aquilo que apreciamos. Mais eficaz e convincente ainda do que ensinar um valor é praticá-lo, fazendo com que ele transpareça em ações e exemplos. A tentativa, no entanto, de impor valores será sempre malsucedida porque valores impostos tornam-se valores mortos. “Impor valores é privar o outro de sua liberdade e negar sua individualidade”, escreve Francesc Torralba no livro O valor de ter valores.E acrescenta: “Os valores gritam, são como vozes que nos impelem a viver de determinada maneira, a sermos coerentes com uma filosofia de vida”.

Descobrimos valores importantes nas crises. Quando tudo vai bem, fazemos um brinde com espumante. Mas, quando as coisas vão mal, precisamos resgatar o que é relevante, o que realmente importa. E aí podemos vislumbrar o que se mostra sólido no interior. É durante uma crise que, muitas vezes, temos a oportunidade de fazer uma faxina interna e também esculpir novos valores. Isso quer dizer que uma pessoa e seu conjunto de valores estão em constante transformação, não sendo uma unidade estática do nascimento à morte. Não apenas a educação e a cultura, mas também as experiências ajudam a incorporar valores.

Dizem que uma pérola se forma quando uma substância estranha, como um grão de areia, penetra em certas espécies de ostras. Reconhecendo aquele objeto estranho no manto, camada de tecido que protege suas vísceras, a ostra passa a secretar camadas de madrepérola, o que confere brilho e forma à pérola.

E se cada um de nós buscar ser a espécie certa de ostra para reconhecer e revestir os desafios da vida com os maiores valores e com as melhores camadas do nosso jeito de ser?





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“Quer digas: Submeto-me voluntariamente às leis vigentes da natureza, porque elas são em meu benefício, ou quer digas: Submeto-me à vontade de Deus, que se revela nas leis da natureza ou na força inconcebível que impulsiona as leis da natureza... ocorre alguma diferença na atuação delas? A força aí está e tu a reconheces,
tensde reconhecê-la, sim, já que não te resta alternativa, tão logo reflitas um pouco... e com isso reconheces teu Deus, o Criador!”

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