Primavera

setembro 19, 2016

Sibélia Zanon


As videiras dormem no inverno. Hibernam. Há, contudo, uma força latente dentro delas, que aguarda um chamado. O chamado da primavera. Dentro de cada um de nós também existem elementos que hibernam. Hibernam ideias, conceitos, certezas sobre como as coisas são ou não, certezas sobre como deveriam ser... No nosso caso, para todos esses elementos um tanto adormecidos que nos habitam, também existe uma primavera. Mas não uma primavera climática, com data marcada, e sim uma primavera circunstancial, provocada pelas oportunidades de vivência que a vida traz.

Ao longo de toda a vida, passamos por experiências importantes. Quando essas experiências deixam 
marcas, elas se transformam em vivências,
 aquelas situações que nos impactamde forma profunda e enriquecedora
 para novas percepções e que despertam nossa sensibilidade para
 aspectos da existência – os quais
 até então não tocavam nosso 
íntimo – modificando nosso
 modo de sentir e enxergar a 
vida e até a nós mesmos. Essas
 marcas ou impressões fortes
 passam a constituir a nossa mais importante base de entendimento da vida. Assim, a vivência pode dar significado, vivacidade ao que dormia. Vez por outra ela chega como uma provocação, convidando o que dorme lá dentro a ser despertado. Afinal, sono eterno nem a Bela Adormecida tem. Tudo e todos acordamos um dia e quase nunca por causa do beijo de um príncipe.

Conceitos emprestados, certezas ilusórias, realidades construídas com açúcar... tudo isso um dia é convidado à autenticidade. E quem já teve a oportunidade de vivenciar esse tipo de transformação sabe que dissolver uma ilusão e construir uma realidade não é um processo indolor.



Diz a lenda que uma maçã caiu na cabeça de Isaac Newton, físico inglês, fazendo-o descobrir a lei da gravidade. Newton percebeu que a maçã caiu porque havia uma força atraente puxando-a, força essa exercida pela Terra. Se uma maçã caísse na minha cabeça, provavelmente não aconteceria muito mais do que um hematoma. Assim, o que é vivência para um, pode não ser para outro, pois o que cada um carrega dentro de si é fundamental para a maneira como ele vai interpretar uma experiência. Daí o fato de as vivências terem impactos diferentes nas cabeças e no interior de cada pessoa, ainda que os fatos ou acontecimentos sejam exatamente os mesmos.

Essa riqueza, que é o conjunto de vivências significativas que pertence a cada um, não se doa e não se empresta, porque cada pessoa é confrontada com as vivências de que precisa, da maneira que precisa, para o seu desenvolvimento único e pessoal. Pode-se até compartilhar impressões e certezas, mas o que ficou vivo dentro de uma pessoa, dificilmente se transfere com a mesma vivacidade para uma outra. Assim, querer poupar o outro de sofrimentos e, com isso, impedir que ele vivencie as questões que se colocam na sua própria trajetória, não tem propósito.

Contudo, isso não significa que precisemos saber o gosto de absolutamente tudo para chegarmos à convicção ou consciência sobre qualquer aspecto da vida. Se assim fosse, não haveria anos de vida suficientes para experimentarmos tudo e muitos riscos estariam envolvidos. É claro que podemos covivenciar situações, podemos aproveitar a experiência do outro, na medida em que buscamos nos colocar no lugar de alguém que sofre ou compartilhar impressões autênticas e profundas.



Na trajetória, deparamos ainda com um desafio pelo caminho: nem tudo o que se experimenta constitui uma vivência. Entre as etapas das videiras há um momento de tensão, quando as flores estão aguardando a fertilização. A chuva pode diminuir a temperatura ideal para a fertilização e arrastar consigo parte significativa do pólen disponível. É nessa fase que pode ocorrer a queda das flores ou frutos jovens ou, ainda, sem a fertilização, o bago permanece pequeno e os cachos de uva fracos e frouxos. Quando vivemos uma experiência, mas não temos a maturidade para compreendê-la de fato e não conseguimos extrair o que de útil ela traz, ela pode passar sem ser percebida, feito flor de uva derrubada no chão. Pode ser que precisemos reviver a mesma história em outro formato por mais vezes até que, enfim, ela possa ser assimilada e transformada numa vivência com poder de conscientização, com o peso e a beleza de um cacho de uva bem formado.


O poder das vivências mostra, assim, que não adianta termos fórmulas prontas, com uma porção de conceitos engessados, para o viver, porque é na prática que assimilamos de maneira profunda sobre a verdade das coisas. Acumular certezas e conceitos emprestados não é a chave para a sabedoria, porque só sabemos realmente sobre aquilo que está marcado em nossa história de forma profunda, vivida, experimentada. As videiras hibernam no inverno, mas há de chegar a primavera.





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