
Daniela Schmitz Wortmeyer
Era um domingo à noite. Eu estava sozinha na sala, sentada no sofá, e já ia levantar-me para cuidar de alguns preparativos para o dia seguinte. Mas, subitamente, fui surpreendida por um perfume: intenso, inebriante, incontornável. Busquei na memória e encontrei: “jasmim”. Olhei para as persianas fechadas e me perguntei como aquele aroma as teria transposto; além disso, de onde poderia provir, pois não havia jasmineiros próximos ao prédio. Ainda assim, o perfume era real, indubitável — eu tinha certeza de que, em algum lugar, os jasmins existiam.
Meus pensamentos percorreram experiências semelhantes, em que algo intangível alcança a percepção, mas não se consegue identificar sua origem, ou mesmo comprovar sua existência. Um sentimento de afeto por alguém que mal se conhece, difícil de explicar à primeira vista: não parece haver motivos palpáveis, mas o coração se aquece, o sorriso surge espontaneamente. Ou um pensamento súbito, uma intuição de que algo precisa ser feito em dado momento. “Por que fazer isso, por que agora?” Não é possível explicar, mas o coração se aquieta quando a providência é tomada. Algumas vezes, as razões se revelam depois.
Sentindo aquele perfume, passei a pensar na existência de Deus. Para que seja percebida, é preciso uma busca interior em direção a uma realidade que transcende limites. Para quem nunca vivenciou essa experiência, de que adiantam milhares de explicações racionais? Porém, para a alma sedenta, para o coração em busca de amparo, para o espírito sôfrego por auxílio e orientação, a abertura íntima permite o pressentimento da presença do Criador, como Força Superior que se manifesta de inúmeras formas ao longo da existência.
Lembrei-me que há dois jasmineiros diante de outro prédio, distante da sala onde me encontrava. Apesar dos obstáculos, o perfume chegou até mim, inequívoco, inevitável. Mas, ainda que eu continuasse desconhecendo sua origem, a experiência não seria menos real. “O essencial é invisível aos olhos”, escreveu Saint-Exupéry. De várias maneiras, o intangível nos chega como realidade poderosa, percebida nos recantos mais íntimos do ser.
“Justin admirava as grandes flores vermelhas de perfume tão forte. Eram de trepadeiras que subiam em duas colunas até o telhado e lá o jardineiro as havia arranjado de tal forma, que as ramas floridas pendiam entre algumas colunas. As mulheres somalis chamavam essas flores de corações em chamas, uma vez que apenas à noite floriam e exalavam perfume.”
Roselis von Sass,
ÁFRICA E SEUS MISTÉRIOS

“Qualidades boas, como verdadeiro amor pelo próximo, confiança, justiça, alegria, gratidão, consideração, amor pela Verdade, produzem uma...”

“De todos os lados acorriam os homens, aproximando-se da povoação. Os homens e rapazes vinham correndo apressadamente do lado do mar, com suas armas de arremesso. Já se podia perceber neles a educação dada por Hjalfdar. Ele havia incutido neles a sua serena conduta; apesar da grande pressa e da máxima vigilância, podia se notar neles o domínio sobre si mesmos.”

“Estando ele ciente de que seu falecimento é certo, é oferecida a ele a possibilidade de conformar-se com tal realidade, fato que lhe possibilita pôr em ordem todas as coisas terrenas, aliás, como é natural. Ao mesmo tempo tem também a oportunidade de meditar sobre seu desenlace, e com isso o temor pela morte perde seu impacto mais forte. Se não aproveitar essa oportunidade, prejudicará a si próprio.”