O cotidiano é a viagem

Março 19, 2013


Sibélia Zanon


Olhava da janela do avião frágeis montinhos de terra que se pronunciavam aqui e ali, como a provocar o mar.

Algumas ilhas eram um pouco maiores e denunciavam penhascos, guarnecidos de casas brancas enfileiradas, que se debruçavam na água, dando a entender que homem e mar dançam por ali uma melodia perigosa e sedutora.

Mediante a força da paisagem e do vento, menor do que um passageiro num avião, eu me sentia mais como um pernilongo agarrado a um ultraleve.

Logo mais, com os pés já no chão, o montinho de terra parecia uma ilha grande o suficiente para abrigar todos aqueles turistas, ilha que eu não conseguia explorar nem em sonho à pé.

A sensação dos contrastes 
foi semelhante ao subirmos
 de jipe uma montanha em 
Minas Gerais. Havia patamares diferentes, em que
podíamos ter cada vez
maior visibilidade da
paisagem no entorno. 
Chegou a ser uma surpresa, quando, ao conquistar o topo, conseguimos ter uma noção
de tudo o que avizinhava aquele morro: natureza, pequenas casas, cidades maiores ao longe e tanto mais. Paisagens impossíveis de se imaginar antes de começar a subida.

Viver é estar num avião ou numa montanha o tempo todo. Por alguns momentos estamos vendo uma situação lá do topo, com abrangência. Quando o assunto muda, voltamos para a base da montanha e não conhecemos bem a paisagem por completo, tendo uma visão fragmentada.

No caminho, encontramos pessoas que também estão experimentando patamares diferentes nas montanhas.


Nem sempre conseguimos julgar acertadamente de qual patamar da montanha ou de que coordenada, se leste ou sul, o interlocutor está falando. Pode ser que ele já tenha passado por esse mirante em que estou e tenha alcançado o topo, enxergando muito mais e tendo, portanto, um bocado de paciência para me escutar contar sobre a paisagem aqui de baixo. Ou pode ser também que ele ainda não conheça a paisagem que estou vendo e eu é que precisarei de paciência para fazê-lo entender por que vejo algo a mais.

E como nem tudo na vida se trata de coordenadas geográficas, na maioria das vezes não poderei decifrar se ele está no topo ou na base da montanha, se ele já viu a casinha bucólica que estou vendo agora em detalhes ou se ainda não alcançou esse mirante. Esse é o charme e o desafio do passeio. Não se pode julgar e descartar facilmente a visão do outro. A lente com a qual ele experimenta o mundo é só dele e depende da viagem particular que ele está fazendo ou já fez ao longo da vida. Isso demanda um grande respeito e paciência ao interagir. E mais que tudo, humildade para reconhecer que existem outros mirantes e tentar ver a paisagem de um patamar novo e desconhecido.




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