Noite Sagrada

Dezembro 20, 2012


Daniela Schmitz Wortmeyer


Uma estrela, um caminho, uma esperança, um recém-nascido. Na quietude de um estábulo, uma noite sagrada. Dois mil anos se passaram, muito na Terra se transformou – e esse quadro continua vivo em nossos corações.

Porém o burburinho do consumo ameaça abafar esses longínquos pensamentos. Muitas pessoas vivenciam intenso estresse na época de final de ano, sob a pressão de resolver inúmeras pendências no curto prazo até o Natal. Há um apelo onipresente para a “festa de Natal ideal” em todos os lares: não por acaso exatamente nos moldes dos comerciais de televisão. Papais noéis exageradamente gordos e vermelhos lembram a todos da obrigação de comprar vultosos presentes para toda a família, de consumir todos os produtos dos patrocinadores para uma ceia fantástica, de ornar a casa com todas as luzes e enfeites possíveis, de providenciar roupas novas para participar da alardeada celebração... Mas, após os excessos de comida e bebida, as manifestações obrigatórias de fraternidade e a distribuição automática de presentes, frequentemente fica um vazio, às vezes uma ponta de tristeza ou nostalgia, deixando no ar uma pergunta: afinal, qual é o sentido dessa comemoração?

“Como é estranho, pois, que cada ser humano, sempre que queira que a festa de Natal atue de maneira excepcionalmente certa sobre ele, procure se transportar para a infância!”, observa o escritor Abdruschin. “Isto é, pois, um sinal suficientemente nítido de que ele não é capaz de vivenciar, como adulto, a festa de Natal com a intuição! É uma prova de que perdeu alguma coisa que possuía quando criança!”

Recordo-me do quanto era esperado o Natal na minha infância. Ao chegar o mês de dezembro, era nítido que havia algo diferente no ar. Havia, sim, a expectativa dos presentes, mas a alegria da época ia muito além. Um momento marcante era a noite de Natal na casa dos avós maternos. Lá se enfeitava um pinheiro com bolas de vidro, velas ou imagens de anjos e em sua base ficava, como que protegido pela grande árvore, um presépio. Na réplica de um estábulo rústico eram acomodadas estatuetas de Maria e José, com um anjo ao fundo e um berço vazio entre eles. Sobre o estábulo havia uma estrela com cauda e nos arredores diversas figuras: pastores, reis magos, animais. Podíamos transitar na sala onde ficava o “pinheirinho” nos dias anteriores à data, vendo aquele pequeno berço à espera de um ocupante, mas na véspera de Natal a entrada era proibida. Apenas depois da ceia, as crianças faziam fila no corredor em penumbra diante da sala fechada, seguidas pelos adultos. Então finalmente abria-se a porta para o ápice da festa: entrávamos solenemente no recinto escuro, iluminado somente pela luz detrás da estrela-guia, uma pequena lâmpada dentro do estábulo e as singelas velas da árvore. Todos se postavam em silêncio em volta daquela cena: era comovente olhar a esperada figura do Menino Jesus na manjedoura. Faziam-se orações e cantava-se Noite Feliz. Ali, para além das palavras proferidas, eu percebia uma atitude de agradecimento solene, algo temeroso, pelo envio da Luz à Terra com o nascimento daquela criança.

Naquele tempo, nas casas e igrejas de diversas cidades do interior a grande atração eram os presépios. Eles não tinham tantas cores e brilhos como as peças decorativas atuais; também não vinham com tudo pronto... Ao montá-los, criava-se uma ambientação para as personagens – figuras simples feitas geralmente de cerâmica – preparando-se um cenário com estábulo, manjedoura, caminhos e outros detalhes da paisagem. Isso era feito com engenhosidade e elementos da natureza. Alguns colhiam musgo no alto de cachoeiras para confeccionar uma espécie de pradaria, como ocorria na casa dos meus avós paternos – eu sempre ficava admirada com a façanha e com o bonito resultado. Usava-se também areia, serragem, bromélias, pedras, sementes, até riozinhos com pontes eram montados, revelando o zelo e a dedicação dos responsáveis. As crianças cresciam vendo o cuidado e a reverência nessa preparação, procurando euforicamente ajudar no que podiam.

Em alguns lares perpetuava-se o ritual em torno da Coroa de Advento, uma tradição trazida pelos imigrantes alemães. A Coroa consiste em um arranjo de mesa composto de quatro velas, posicionadas comumente como se nas pontas de uma cruz isósceles, circundadas por adornos variados. No primeiro domingo do mês de dezembro, acende-se uma das velas durante um momento solene de reflexão, que pode envolver a leitura de um texto ou uma oração. No segundo domingo, são acesas duas velas no mesmo contexto, e assim sucessivamente até o Natal, quando então a cruz é acesa completamente. Trata-se de um ritual de preparação para o Natal, que convida os participantes a se conectarem com o sentido espiritual da data.





Em O Livro do Juízo Final, Roselis von Sass aborda os costumes natalinos de diversos povos antigos, revelando que já muito antes de Cristo esse período do ano era festejado. As festividades de povos tão distantes como sumerianos e incas relacionavam-se ao Sol, cuja luz era interpretada como um reflexo do Amor do Criador. Os sumerianos costumavam presentear-se com rosas nesse período, que também eram plantadas em torno de seus Templos do Sol. Os povos germanos celebravam a Festa das Doze Noites Sagradas, acreditando que nessa época dava-se a renovação dos fios de Amor que uniam todas as criaturas. O fogo ardia continuamente nesses dias festivos, em lareiras e fogueiras, simbolizando o calor do Amor e iluminando os caminhos. Em todas essas celebrações, “A alegria, a afirmação positiva da vida e o saber do Divino Amor Universal reinando sobre todos os mundos, elevavam-se qual orações de agradecimento para a Luz.”, relata a escritora.
Muito se perdeu em forma e conteúdo dessas tradições e, nos dias atuais, a celebração do Natal frequentemente é esvaziada de qualquer significado espiritual. Embora haja uma profusão de enfeites e luzes artificiais por todos os lugares, parece faltar algo essencial, conduzindo até as crianças a um olhar cada vez mais materialista. “Nas árvores de Natal excessivamente enfeitadas de hoje, já nada mais indica que numa noite se acendera uma Luz na Terra pelo nascimento de Jesus.”, opina Roselis von Sass.

Quem sabe a singeleza dos antigos natais guarde um ensinamento a todos nós. Pois a magia e a alegria do Natal não dependem dos objetos que se pode adquirir, tampouco da sofisticação das iguarias em uma mesa, da quantidade de pessoas reunidas ou de qualquer outro aspecto exterior.

A imagem do nascimento de um Messias marcado pela passagem de um cometa, a estrela-guia, porta uma mensagem que fala ao eu mais profundo do ser humano, chamando à introspecção. A ideia de um Amor Universal que tudo abraça e conduz ao desenvolvimento, fornecendo luz e calor como uma grande estrela na escuridão, aquece os corações e inspira a procura de conexão com o sagrado.

Podemos ser mais criativos do que sugerem as convenções sociais e construir um sentido pessoal, verdadeiro, para o Natal. Como uma pequena vela que se acende, cada um ao seu modo pode tornar essa época especial, abrindo-se para celebrar a Vida e receber as irradiações do Amor. Então haverá novamente noites sagradas: repletas de presentes preciosos como verdade, esperança, amor e confiança, enlaçados pelo sincero agradecimento ao Criador.





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