Habitar-se por inteiro

fevereiro 21, 2026


Sibélia Zanon

Desde o nascimento e pela vida toda carregamos uma cicatriz. O marco centralizado no corpo divide o abdômen em quatro partes, à altura do disco que se insinua entre as vértebras L3 e L4.

A cicatriz indica o local onde um dia esteve implantado um cordão umbilical, rio trafegando sais minerais, vitaminas, oxigênio e glicose entre mãe e feto — porta para a vida.

“O umbigo marca nossa ligação com a Terra e com todos os seres vivos, e não apenas com o corpo de nossa mãe”, sugere o filósofo Emanuele Coccia.

Assim como o umbigo, também o ato de cuidar é gerador da vida. Sem o cuidado não haveria sobreviventes: o primeiro choro inaugura a dependência radical por um provedor de afeto e leite. E essa dependência, palavra culturalmente carregada de estigma e negatividade, faz-se alicerce para a potência e o desenvolvimento.

Com o alicerce desenhado, somos convidados a ousar passos de independência.

E, embora tais passos sejam saudáveis e necessários, a ode à autonomia costuma ofuscar o sortimento de cuidados que nos cercam ao longo de toda a vida — muitas vezes expressos na simplicidade generosa de uma palavra ou de um prato de comida quente.

O cuidado circula por toda parte. O invisível guarda muitos cuidados. Basta pensar que, na materialidade dos corpos, uma ferida pode ser fechada, a exemplo da própria cicatriz do umbigo que, após o nascimento, já não tem mais a utilidade original.

Experiências são professoras do cuidado. Em cada perigo ou sofrimento há um aprendizado sobre a dor, condição universal. Esse ensinamento, matéria sensível, torna-se parte da compreensão de mundo daquele que experiencia. Quem quebra um braço compreende as dificuldades de um amigo com o braço imobilizado; quem teve labirintite conduz o outro com mais delicadeza pelas curvas da estrada; quem já teve a alma machucada por uma crítica inconsequente, ou por uma promessa descumprida, tem muito mais cuidado com a expressão sonora dos seus próprios pensamentos e sentimentos.

Experiências de cuidado amoroso também imprimem suas marcas como inspiração e capacidade de cuidar e amar.

Muitas vezes, é com o tato que se constrói o cuidado, gerando proximidade e entrelaçamento. “Se a visão gera a distância entre o sujeito e o objeto, o tato mistura esses dois mundos”, escreve Antonio Lafuente, pesquisador em estudos da ciência.

Situações em que nos tornamos vulneráveis podem ensinar-nos sobre humildade e sobre a força de uma rede de interdependência: a importância de apoiar e ser apoiado numa vida que une todos os seres por solo, água, ar — e até pensamento.

Enquanto o cuidar se fundamenta na colaboração, na escuta sensível e na validação mútua, nossa estrutura social insiste em outro tom: um mantra que celebra a competição e a exaltação dos melhores.

Logo que o umbigo cicatriza, a escola já introduz tal lógica, destacando o melhor em uma multidão de crianças. Fica esquecida a alternativa inclusiva e orgânica — aquela que contempla uma agrofloresta no lugar de uma monocultura — que seria valorizar um grupo enriquecido pela singularidade de cada indivíduo.

Colaborar não é apagar-se, mas habitar-se por inteiro para, então, oferecer o melhor de si ao todo. É reconhecer a própria força e escutá-la, saber dizer sim quando realmente existe ressonância interna. Olhar para os próprios caminhos, reinventar rotas: tudo isso traduz cuidado. Quando cultivamos atenção ao que pensamos e fazemos, conosco e com o outro, tecemos um campo amoroso de presença, em que a vida se alinha ao que verdadeiramente somos.

“Dar desinteressadamente, ajudar onde for necessário, ter compreensão pelo sofrimento do próximo, bem como por suas fraquezas, chama-se receber”, escreve o escritor Abdruschin.

Sem função fisiológica, não é à toa que o umbigo se perpetua. A cicatriz, alojada no centro do abdômen, sobrevive como um lembrete: cuidar é cultivar potência em si e no outro.

 



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