
Sibélia Zanon
Desde o nascimento e pela vida toda carregamos uma cicatriz. O marco centralizado no corpo divide o abdômen em quatro partes, à altura do disco que se insinua entre as vértebras L3 e L4.
A cicatriz indica o local onde um dia esteve implantado um cordão umbilical, rio trafegando sais minerais, vitaminas, oxigênio e glicose entre mãe e feto — porta para a vida.
“O umbigo marca nossa ligação com a Terra e com todos os seres vivos, e não apenas com o corpo de nossa mãe”, sugere o filósofo Emanuele Coccia.
Assim como o umbigo, também o ato de cuidar é gerador da vida. Sem o cuidado não haveria sobreviventes: o primeiro choro inaugura a dependência radical por um provedor de afeto e leite. E essa dependência, palavra culturalmente carregada de estigma e negatividade, faz-se alicerce para a potência e o desenvolvimento.
Com o alicerce desenhado, somos convidados a ousar passos de independência.
E, embora tais passos sejam saudáveis e necessários, a ode à autonomia costuma ofuscar o sortimento de cuidados que nos cercam ao longo de toda a vida — muitas vezes expressos na simplicidade generosa de uma palavra ou de um prato de comida quente.
O cuidado circula por toda parte. O invisível guarda muitos cuidados. Basta pensar que, na materialidade dos corpos, uma ferida pode ser fechada, a exemplo da própria cicatriz do umbigo que, após o nascimento, já não tem mais a utilidade original.
Experiências são professoras do cuidado. Em cada perigo ou sofrimento há um aprendizado sobre a dor, condição universal. Esse ensinamento, matéria sensível, torna-se parte da compreensão de mundo daquele que experiencia. Quem quebra um braço compreende as dificuldades de um amigo com o braço imobilizado; quem teve labirintite conduz o outro com mais delicadeza pelas curvas da estrada; quem já teve a alma machucada por uma crítica inconsequente, ou por uma promessa descumprida, tem muito mais cuidado com a expressão sonora dos seus próprios pensamentos e sentimentos.
Experiências de cuidado amoroso também imprimem suas marcas como inspiração e capacidade de cuidar e amar.
Muitas vezes, é com o tato que se constrói o cuidado, gerando proximidade e entrelaçamento. “Se a visão gera a distância entre o sujeito e o objeto, o tato mistura esses dois mundos”, escreve Antonio Lafuente, pesquisador em estudos da ciência.
Situações em que nos tornamos vulneráveis podem ensinar-nos sobre humildade e sobre a força de uma rede de interdependência: a importância de apoiar e ser apoiado numa vida que une todos os seres por solo, água, ar — e até pensamento.
Enquanto o cuidar se fundamenta na colaboração, na escuta sensível e na validação mútua, nossa estrutura social insiste em outro tom: um mantra que celebra a competição e a exaltação dos melhores.
Logo que o umbigo cicatriza, a escola já introduz tal lógica, destacando o melhor em uma multidão de crianças. Fica esquecida a alternativa inclusiva e orgânica — aquela que contempla uma agrofloresta no lugar de uma monocultura — que seria valorizar um grupo enriquecido pela singularidade de cada indivíduo.
Colaborar não é apagar-se, mas habitar-se por inteiro para, então, oferecer o melhor de si ao todo. É reconhecer a própria força e escutá-la, saber dizer sim quando realmente existe ressonância interna. Olhar para os próprios caminhos, reinventar rotas: tudo isso traduz cuidado. Quando cultivamos atenção ao que pensamos e fazemos, conosco e com o outro, tecemos um campo amoroso de presença, em que a vida se alinha ao que verdadeiramente somos.
“Dar desinteressadamente, ajudar onde for necessário, ter compreensão pelo sofrimento do próximo, bem como por suas fraquezas, chama-se receber”, escreve o escritor Abdruschin.
Sem função fisiológica, não é à toa que o umbigo se perpetua. A cicatriz, alojada no centro do abdômen, sobrevive como um lembrete: cuidar é cultivar potência em si e no outro.

Era um domingo à noite. Eu estava sozinha na sala, sentada no sofá, e já ia levantar-me para cuidar de alguns preparativos para o dia seguinte. Mas, subitamente, fui surpreendida por um perfume: intenso, inebriante, incontornável. Busquei na memória e encontrei: “jasmim”. Olhei para as persianas fechadas e me perguntei como aquele aroma as teria transposto; além disso, de onde poderia provir, pois não havia jasmineiros próximos ao prédio. Ainda assim, o perfume era real, indubitável — eu tinha certeza de que, em algum lugar, os jasmins existiam.
Meus pensamentos percorreram experiências semelhantes, em que algo intangível alcança a percepção, mas não se consegue identificar sua origem, ou mesmo comprovar sua existência. Um sentimento de afeto…

“...o conhecimento das leis universais da Criação, igualmente imutáveis, permite saber de antemão o que aguarda a humanidade como um todo no futuro...”
Roberto C. P. Junior, O Filho do Homem na Terra

Numa época de muita informação e pouca clareza, há a sensação de que algo está em ebulição. As mudanças são rápidas demais para serem digeridas e as referências conhecidas se desorganizam facilmente, enquanto tentamos seguir uma rotina.
Talvez por isso um fenômeno silencioso acontece: cada vez mais pessoas voltam a se interessar por textos antigos e pelas perguntas que a modernidade tentou silenciar.
Quem somos? De onde viemos? Para onde estamos indo? Qual o sentido por trás das crises que atravessamos?