Em busca do sagrado

outubro 20, 2026

Caroline Derschner

“O ser humano de hoje é como um homem ao qual foi dado um reino e que prefere perder seu tempo com os mais simples brinquedos infantis!”

Abdruschin, Na Luz da Verdade — Mensagem do Graal


A atmosfera estava parada e nenhum carro movimentava a rua. Nenhum passo na calçada.Na avenida, quase nada se movia e, no ponto de ônibus, ninguém aguardava viagem.

O único som vinha de um pássaro longínquo, que provavelmente estranhava o súbito estado de sítio na grande cidade.

Mas não era medo, luto ou calamidade que trouxera recolhimento às ruas, e sim futebol.Uma única partida bastou para que milhares de pessoas, sem ordem ou comando, reorganizassem horários, deslocamentos, conversas e encontros.

Naquele momento, o evento, levado por muitos com devotamento e seriedade, arrebatava pensamentos, emoções e a atenção da maioria, sintonizando-os em torno de um único foco.

O que me impressionava, no entanto, não era o jogo em si. A mesma disposição encontramos em festas como o Carnaval, em relação a algum ídolo do momento e até mesmo na moda ou em algum hobby corriqueiro. Esta, afinal, não é uma reflexão sobre futebol. É sobre perceber que somos capazes de esmerada organização, disciplina e comunhão em torno de algo comum, mas raramente em prol de algo maior, que pudesse solucionar grandes problemas ou iluminar uma vida inteira...

Em épocas longínquas, o viver ainda trazia algo desse impulso luminoso e era marcado não somente por alguns, mas muitos ritos cotidianos ou especiais que sintonizavam as pessoas em anseios mais elevados, polindo os dias com brilho de significado.

Por uma fresta do passado, o sagrado, aquecendo, crepita e espreita, convidando-nos a contemplá-lo apenas por alguns instantes... Sigamos esta chama.

“Mesmo quando teve início a decadência humana, isto é, quando não havia mais templos nem locais especiais de culto, acendiam-se anualmente, em meados de junho, os fogos em honra do Sol. Eram sempre dias festivos. Os seres humanos cantavam hinos em seu louvor e pediam que ele, o ‘Fulgurante’, brilhasse beneficamente sobre suas sementes. No decorrer desses dias e noites festivas colhiam-se ervas curativas e plantavam-se certas árvores, arbustos e flores; as pessoas mais jovens e as crianças dançavam em volta das fogueiras, e as gerações mais velhas entoavam em coro canções de agradecimento em honra de Apolo...

Todas as fogueiras em homenagem ao Sol acendiam-se quando este se achava em seu ponto mais alto, isto é, ao meio-dia. Às vezes alguns poucos, geralmente crianças, podiam ver nessa hora o senhor do Sol nos ares. Quando isso sucedia, um júbilo indescritível reinava entre os participantes das festividades…”, escreve Roselis von Sass em O Livro do Juízo Final.

As festividades religiosas dos povos ligados à Luz eram apenas algumas que marcavam o passar e transicionar dos dias e épocas, mas não só. Orações e intenções ao amanhecer, ao findar do dia e nas horas das refeições; cânticos nos mosteiros; e celebrações nas casas, nos bosques ou nas clareiras exaltavam outros movimentos de vida que iam muito além de divertimentos e distrações.

A vida em família, a sintonização dominical, as colheitas, as estações do ano, as peregrinações e até mesmo o acender de uma vela devocional ou o arranjo de flores recém-colhidas com o objetivo de enfeitar casas e altares deixavam a trama da vida não só mais bonita, mas fundamentalmente mais consistente. Com peso de sentido profundo.

Tais momentos transcendentes, fossem em dias festivos ou comuns, eram não somente um símbolo do sagrado na matéria, mas um ato realizado e visível, capaz de parar as atividades, reunir pessoas e trazer um pouquinho do Céu para a Terra. Um lembrete constante de que os dias e as horas não eram — nem deveriam ser — todos iguais e mundanos. Havia algo mais.

Sobre isso, na Mensagem do Graal, Abdruschin comenta: “Sede prestimosos com vosso saber para com aqueles que não estão contentes com os prazeres passageiros e que procuram algo mais na existência terrena, não sendo como os animais, que só procuram satisfazer o corpo.”

Em outro trecho, ele pontua: “Na Terra, o ser humano tem o dever de colocar como alvo o que para ele seja o mais alto alcançável e de empenhar-se com todas as forças para alcançar esse alvo. Como ser humano! Isso exclui, de antemão, que se esforce tão só pela comida e bebida como os animais, conforme infelizmente fazem tantas pessoas [...]”.

Hoje perdemos contato com os ritos do cotidiano que dão norte maior à existência e, muitas vezes, só conseguimos absorver o pouco que resta de seu sentido em raras oportunidades que ainda incidem sobre o calendário.

A perda do sagrado, que no passado irrigava com o espiritual aquilo que era terreno, trazia mais do que uma vivificação para a labuta diária. Era também uma lembrança de um antigo ensinamento que alude que não devemos empoleirar o dia a dia em nosso altar pessoal, adorando o efêmero, mas sim levar o impulso de nossa sintonização devocional para o dia a dia, elevando tudo que for possível ao nosso alcance.

Isso se reflete em como hoje o correr dos dias é marcado em grande parte apenas por compromissos cujo sentido é quase que exclusivamente material e de subsistência, como trabalhar e fazer pausas para as refeições e o descanso e o lazer necessários.

“Com espanto verificareis a vacuidade de tudo sobre o que as pessoas conversam, quando não podem falar a respeito de suas ocupações em geral. Intuireis, até à aversão, o vazio dos pensamentos, a estreiteza opressora do círculo de interesses, como também a assustadora superficialidade, tão logo vos ocupardes com aquilo de modo sério e com aguda observação. As poucas exceções que então encontrareis, cujas palavras em horas de lazer da vida cotidiana se encontram perpassadas de anseio pelo aperfeiçoamento da alma, parecer-vos-ão estranhos solitários em meio à turbulência de um parque de diversões”, escreve Abdruschin em Na Luz da Verdade.

Ouço gritos que atravessam prédios, casas e apartamentos. Em comemoração, as pessoas saem às janelas, sorriem e acenam umas para as outras, movidas por efusiva emoção e gestos de amizade e união. Mas, mal passados poucos dias da comemoração esportiva, reconheço que a falta de educação e o malquerer do próximo tomam novamente as ruas, em caótica e mal-humorada convivência.

Quem dera poder vivenciar novamente a alegria de vibrar em conjunto em prol de algo gratificante e impulsionador mais vezes, com o mesmo entusiasmo e dedicação de uma partida de futebol ou uma grande competição qualquer. Voltaria este tempo algum dia para a humanidade?

“Assim, tendes de examinar, pelo menos uma vez seriamente, uma coisa após a outra, a respeito do valor real que se oferece a vós. Verificareis assim que tudo aquilo que hoje aí ocorre se apresentará diante de vós como um inútil castelo de cartas, para o qual o tempo terreno, a vós presenteado para o desenvolvimento, é realmente por demais precioso, a fim de que possa ser sacrificada nisso uma hora sequer impunemente!”

Abdruschin, Na Luz da Verdade — Mensagem do Graal

 



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