Quando o cenário parece desolador, quando o mundo externo silencia e apaga suas luzes artificiais, o mundo de dentro ganha voz e espaço.
É tempo de buscar, no silêncio desses interiores, os valores atemporais, aqueles que harmonizam com as vozes e a sabedoria da natureza.
É como caminhar por uma terra devastada em busca das preciosas sementes que restaram, aquelas que não se desintegram facilmente, que resistem às intempéries, que abrigam o poder de reflorestar terras quase desérticas.
“Eu queria tomar as coisas do jardim para, com elas, reconstruir uma saudade. Usar as cores, os gostos, os perfumes, os sons, as sensações táteis como pontes para voltar a algum lugar do passado, que mora dentro de mim.”

“— Tua resposta foi correta. Teu pai, depois da morte, será espírito e alma. Não obstante, continuará a ser o mesmo. A perda do corpo terreno não modifica seu espírito e sua alma! Sentirá por ti o mesmo amor como até agora, e tu também sempre te lembrarás dele com amor. ”

Era um domingo à noite. Eu estava sozinha na sala, sentada no sofá, e já ia levantar-me para cuidar de alguns preparativos para o dia seguinte. Mas, subitamente, fui surpreendida por um perfume: intenso, inebriante, incontornável. Busquei na memória e encontrei: “jasmim”. Olhei para as persianas fechadas e me perguntei como aquele aroma as teria transposto; além disso, de onde poderia provir, pois não havia jasmineiros próximos ao prédio. Ainda assim, o perfume era real, indubitável — eu tinha certeza de que, em algum lugar, os jasmins existiam.
Meus pensamentos percorreram experiências semelhantes, em que algo intangível alcança a percepção, mas não se consegue identificar sua origem, ou mesmo comprovar sua existência. Um sentimento de afeto…
