Coando ideias

fevereiro 07, 2026

Caroline Derschner

Em um canto da cafeteria, enquanto trabalho no computador, ideias vaporizam por toda parte. O ruído de xícaras se esbarrando delicadamente enquanto outras pessoas também trabalham, longe de atrapalhar, dá um toque de energia e ânimo ao dia, inspirando movimento.

Escapar de uma sala vazia e muda para se unir a mais pessoas sintonizadas em um objetivo semelhante pode ser muito bom. Há silêncios abençoados e regeneradores, mas também outros inférteis que, na ausência de atividade, convidam sorrateiramente à lentidão da estagnação.

O dia seguiu veloz, até que o ruído, antes acompanhamento estimulante e vivaz, foi adquirindo outros tons e se tornou excesso. Pessoas para o almoço chegavam carregadas de insatisfações, celulares emitiam sons altos, buzinas davam sustos e as conversas cada vez mais altas lutavam para ganhar espaço entre talheres nervosos e pratos fumegantes. O movimento antes produtivo e construtivo saiu do compasso e, aflito, virou ansiedade.

Mas não somente pelo barulho em desordenado som...

Não há lugares no mundo, mesmo os mais silenciosos, em que possamos nos esconder da influência invisível dos pensamentos. Como redes elétricas sempre ativas, torres de transmissão e conexões sem fio, eles agitam a matéria fina tanto quanto a poluição sonora das grandes cidades e estabelecimentos movimentados.

Se pudéssemos vê-los ou ouvi-los, tão nítidos como visitantes em trânsito, nosso cuidado em escolher não só ambientes, mas também companhias, entretenimentos e ideias, seria bem outro.

“Pensamentos não contam, basta não falar nada que tudo está bem”, diz a moça que teve um dia difícil no ambiente de trabalho, sem notar os julgamentos que o colega, silenciosamente, lhe dirige sem descanso da mesa ao lado.

Em outro lugar, perturbado, um moço sai de uma festa de família como se tivesse confusos grilhões em volta de si e custasse muito a articular novamente suas próprias ideias. De onde vieram tais amarras?

Triste após uma onda repentina de pensamentos depreciativos sobre si, uma mulher se apequena na presença do homem ao seu lado, sentindo-se estranhamente inadequada e sem autoconfiança, sem saber como nem onde embarcou em tal maré. Boias de salvação ofertadas em consideração, ou cordas de opiniões que, continuamente enroscadas, embaraçam seu movimento?

Por baixo da cordialidade e do transcorrer normal da rotina, outras cenas possíveis dão o tom da peça da vida, acontecendo a partir do que chamamos erradamente de bastidores.

Fios e tramas de tropeço fácil, mas que não podem ser retirados com as mãos...

O autor Abdruschin escreve em Na Luz da Verdade “Por último, manifesta-se ainda, no amor puro, o desejo ardente de poder fazer algo bem grande para o outro ser querido, no sentido nobre, de não o ofendê-lo ou o feri-lo com nenhum gesto, nenhum pensamento, nenhuma palavra, muito menos ainda com uma ação feia. Torna-se viva a mais delicada consideração.”

Ofender ou ferir com pensamentos? O olhar atento à frase de Abdruschin revela muito mais do que apenas gestos ou ações exteriores. A importância de manter limpo e puro o foco dos pensamentos, também vastamente presente em outras indicações do autor, é bonita e inspiradora. Poucas pessoas que conheço em toda minha vida, uma vez ouvindo-as, se recusariam a concordar com seu preceito. No entanto, notar o fenômeno atuando no cotidiano de forma viva e presente é tarefa de lenta transposição, ponte vigilante da crença à convicção.

Se soubéssemos o que damos ao outro com nossos pensamentos, seríamos bem mais cautelosos ao emitir juízos sobre o próximo. Pensamentos podem turvar ideias e planos, contaminar a matéria fina — deixando o ar pesado — e levar perigosamente à ação, de início apenas na mente de um outro alguém, subitamente visitado por “estranhas ideias”.

O autor explica:

“Pode-se ainda observar outra atividade nesse mundo de matéria fina: formas de pensamentos são impelidas pela vontade de seus geradores em direção a determinadas pessoas, às quais podem aderir.

Tratando-se de formas de pensamentos de espécie mais pura e nobre, constituem-se elas num embelezamento da pessoa visada, reforçando ao seu redor a proteção da pureza, e podem, pela semelhança das intuições interiores, elevar ainda mais e fortalecer para a ascensão.

Mas pensamentos de impureza têm de conspurcar a pessoa visada, da mesma forma que um corpo de matéria grosseira se torna sujo pelos arremessos de imundície e lodo. Se uma pessoa assim atingida não estiver interiormente bem ancorada nas centrais de correntezas luminosas, pode suceder-lhe que sua intuição venha a ser perturbada com o tempo, devido a esses arremessos de pensamentos impuros.”

Dentre tais males, a presunção de “saber melhor” pede cautela ao lançar nossas vontades sobre o outro. Diferente é com os bons desejos, surgidos da intuição, que, com boa vontade pura, sempre auxiliam de forma oportuna ali onde puderem ser recebidos.

Antes de ir embora, noto que algumas pessoas no café ainda parecem estranhamente imunes a qualquer ruído ou distração. Parada, saúdo seu foco e direcionamento, mas lembro-me também de que ser insensível ao que nos rodeia — pequenas ideias, percepções da realidade acontecendo ao redor, vivências cotidianas e refresco de opiniões — pode ser tão nocivo quanto ser suscetível a qualquer vento que passe. “Nem antolhos, nem peneira frouxa”, concluo.

Talvez o segredo da vida seja ser membrana permeável, rede que retém tesouros sem perdê-los quando passam, mas que também identifica e descarta impurezas. Filtro de coar, que, na retenção do que importa, compondo, separando e unindo elementos, faz a alquimia de substâncias únicas. Como um café bem passado, sem borra nem pó, dosando corpo, sabor e aroma...

Sorrio, enfim. Se o ofício da convivência fosse fácil, não precisaríamos do exercício da vivência em conjunto nesta Terra. Assim como, se fosse fácil fazer um bom café, não teríamos tantas cafeterias por aí a tentar novamente e, com afinco, a mesma arte.

 



Leia Também

Valiosas sementes

julho 11, 2026


“Tudo o que vibra do interior: os pensamentos em que se investe, a forma como se usa o tempo, as palavras pronunciadas são sementes que desenham a paisagem do mundo.

Sibélia Zanon, Espiando pela Fresta

Leia Mais
Atuação consciente

junho 17, 2026


“Tão logo uma pessoa possa 
vivenciar, conscientemente, todo o evoluir e todo o existir; seu intuir, pensar e atuar serão uma única e alegre confirmação de Deus.

Silenciará então, não falará muito sobre..."


Abdruschin, Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal

Leia Mais
Hora abençoada

maio 30, 2026


“Abençoada seja, portanto, a hora em que os pensamentos de amor puro adquirirem novamente um lugar de predomínio entre a humanidade, para que...”

Abdruschin, Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal


Leia Mais