Tempo de Transformação

maio 15, 2021

Queda d'água caindo num lago

Por: Daniela Schmitz Wortmeyer
 
Respirar. Profundamente respirar. Nem tinha me dado conta de quanto tempo fazia que eu não respirava de verdade. Chegamos ao final da trilha e encontramos a cachoeira transpassada pela suave luz da manhã, ainda silenciosa e intocada naquele dia.
Um raro privilégio em um lugar normalmente visitado por muitos turistas, nem sempre gentis e cuidadosos ao adentrarem o lar de tantas plantas, animais, minerais... Assim, por longos minutos, estávamos sozinhos no chamado Poço do Sol. Foi possível mergulhar nas suas águas frias e vivenciar um autêntico despertar.
Eu vislumbrava as samambaias cor-de-esmeralda que enfeitavam as paredes de pedra por onde jorrava a água pura e cristalina; aquele verde-escuro iluminava toda a piscina natural, compondo um cenário que irradiava força de vida. Depois, sentada à margem e contemplando aquele
quadro tão especial, percebi que respirava de um modo profundo e consciente.
 
Essa vivência me fez refletir sobre o quanto perdemos em saúde, vitalidade e
autoconsciência ao negligenciar momentos de simples contato com a Natureza em nosso cotidiano.
Nos meses que se seguiram, passei a pesquisar mais sobre o significado da respiração, tema que veio à tona de forma muito nítida naquele momento.
 
Respirar parece algo tão natural e automático, que frequentemente se torna subestimado em nosso dia a dia.Porém... basta faltar-nos o ar, por alguns segundos apenas, que experimentamos aflição, a sensação de ter nossa sobrevivência colocada em perigo. 
Subitamente, tornamo-nos conscientes de como é precioso o ar que respiramos.
 
É interessante observar como, ao deixar o útero materno, temos como sinal de nossa independência daquele ambiente protegido, assim como de nossa conexão com o mundo exterior, a primeira respiração; de modo análogo, o fim de uma jornada terrena é associado ao último suspiro.
Em línguas antigas como hebraico, sânscrito, latim e grego, vemos a mesma
expressão que designa “respiração” sendo usada para referir “alma” ou “espírito”. É conhecida a narrativa bíblica sobre a origem da humanidade, segundo a qual o homem, moldado a partir do pó pelo Criador, teria recebido um sopro do hálito da vida em suas narinas, tornando-se, a partir
de então, um ser vivo (Gênesis 2,7).
 
No livro A Doença Como Caminho, Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke analisam como, por meio da respiração, estamos ligados a algo que nos transcende, uma vez que dependemos de um fluxo que está além da forma, que não faz parte de nós, nem nos pertence.
O ar que respiramos é compartilhado com todos os seres vivos, implicando, mesmo que não tenhamos consciência disso, uma conexão com o todo, por  meio da energia vital que atravessa a Criação.
Nas palavras dos autores: “Vivemos na respiração como se estivéssemos dentro de um útero gigantesco, que se estende muito além de nossa pequena e limitada existência, pois ele é a vida, aquele derradeiro grande mistério que não conseguimos explicar, nem definir, que só podemos sentir abrindo-nos e permitindo que flua através de nós. A respiração é o cordão
umbilical através do qual esta vida flui para nós. É a respiração que faz com que continuemos fiéis a esse dar e receber”.
 
O processo de respiração é frequentemente associado a um movimento rítmico que se alterna entre polaridades opostas e complementares: inspiração-expiração, contração-descontração, retenção-liberação, receber-dar.
Uma polaridade não pode existir sem a outra, sendo necessário equilíbrio dinâmico entre ambas para que o fluxo da vida seja mantido.
Citando novamente Dethlefsen e Dahlke: “No caso, não importa o que se quer ter: dinheiro, fama, sabedoria, conhecimento. Em todas as circunstâncias deve haver equilíbrio entre dar e receber, caso contrário sufocaremos com o que tomamos.
A pessoa só recebe na medida em que dá.
Quando para de dar, interrompe-se a corrente e esta não flui mais. Como são dignos de pena os que querem levar seu conhecimento para a sepultura!
Protegem com tanto zelo o pouquinho que
conseguiram obter, renunciando à plenitude, que terminam tendo de esperar por todos os que aprenderam a distribuir de forma transformada o que obtiveram. Ah, se o ser humano fosse capaz de compreender que existe mais do que o suficiente de tudo para todos!”
 
Na mesma direção, na obra Respostas a Perguntas, o escritor Abdruschin analisa o fenômeno da respiração à luz de uma lei que perpassa toda a Criação, ligando indissociavelmente o dar e o receber. Nas palavras do autor:
“Com a expiração o ser humano dá!
Ele dá algo que representa uma utilidade para a Criação: mencionamos aqui apenas o carbono, necessário à alimentação das plantas. Reciprocamente, ou consequentemente, pode aquele ser humano, que cuida bem da expiração, inalar profundamente e com satisfação, pelo que lhe aflui grande força, completamente diferente da respiração superficial”.
 
Dessa forma, o tema da respiração nos conduz a analisar processos de troca, intercâmbio, relacionamento, comunicação. Por vezes, nossa atenção está muito voltada para o receber: desejamos inalar livremente ar puro e abundante, buscamos saúde, satisfação, conhecimento, realização e tantas coisas mais. Contudo, não raro esquecemos que é preciso realimentar o ciclo da vida, doando algo do que recebemos. Dessa forma, contribuímos para o equilíbrio e a contínua renovação da energia vital.
 
Naturalmente, isso não se refere apenas ao aspecto físico, mas a todas as dimensões de nossa existência, como esclarece Abdruschin: “Assim como se manifesta nos acontecimentos corporais, igualmente se processa nas coisas espirituais. Se um espírito deseja colher, isto é, receber, então deve transformar e retransmitir o recebido.
A transformação ou formação, antes da
retransmissão, robustece e tempera o espírito, que, nesse fortalecimento, torna-se capaz de absorver cada vez mais coisas valiosas, após haver criado espaço para isso pela transmissão, seja por palavras ou por escrito ou outra ação”.
 
Poder respirar livremente se liga à sensação de liberdade e plenitude. Diante de tantos acontecimentos que nos provocam “falta de ar”, ansiedade e medo, talvez caiba olhar com mais atenção para o significado profundo do fenômeno da respiração. Se respirar nos conecta ao fluxo vital da Criação e se, como vimos, é preciso dar para receber, quem sabe esteja aí uma indicação do caminho a ser percorrido. O que temos feito com o alento de vida que nos foi concedido? Em que medida buscamos nos conectar conscientemente com essa força que nos transcende?
Que contribuição prestamos para o equilíbrio e o desenvolvimento da Criação?
 Quem sabe as águas frias da cachoeira, com seus reflexos verde-esmeralda, tenham feito muito mais do que redespertar meus pulmões para respirar o ar puro das lindas matas da Chapada dos Veadeiros.
Quem sabe, o contato com a Natureza tenha redespertado a consciência da força de vida que nos transcende, sustenta e conecta a toda a Criação.
Assim como da responsabilidade de contribuir, de algum modo, para o beneficiamento desse maravilhoso Universo, em que nos é concedido o dom da existência consciente.
 
“No Universo age uma lei eterna: Somente dando pode-se também receber, quando se trata de valores permanentes!”
 
Abdruschin, Na Luz da Verdade – Mensagem do Graal


Leia Também

Águas mansas e corredeiras

janeiro 22, 2022

Ilustração de pequeno barco com pessoa remando dentro

Quando pequenos, nós humanos perguntamos incessantemente pelos tantos porquês, passamos por fases em que aprendemos muito em pouco tempo, desenvolvemos novas percepções e visão de mundo. Mais tarde, os questionamentos se deslocam para outros objetos ou lugares, mas continuam sendo potentes gatilhos para o movimento – sempre que permitimos.
Leia Mais
Boa Vontade

janeiro 18, 2022

Lindo por do sol na praia

“Com a persistente boa vontade  
tem de sobrevir o remate de todas as expiações, já que aquele que quer o bem e age nesse sentido não concede novo alimento para novas exigências de expiações.”

Abdruschin, Na Luz da Verdade – Mensagem do Graal
Leia Mais
Silenciosamente

janeiro 16, 2022

Foto de entarder na praia, onde a sequencia de ondas, banha e desenha a areia em movimento infinito.

“Retira-te do convívio e procura a solidão. Apenas durante um curto lapso de tempo… Todos os grandes feitos nascem no silêncio…”

Roselis von Sass, África e seus Mistérios
Leia Mais