
Sibélia Zanon
Nos dias frios, a primavera é aguardada. Nutre-se a expectativa pelos primeiros brotos. Logo que o Sol ilumina timidamente as folhas verdes das árvores, as pessoas passam a apreciar cada instante ao ar livre — mesmo que o clima seja ainda frio. Temos a expectativa de que o Sol nos aqueça. E essa expectativa se desdobra em tantas primaveras e verões da vida — desejamos uma vida boa. Não há erro nisso. Uma vida sem esperança seria fria. Tal qual a semente, guardamos no interior o impulso para a prosperidade. Viver sem expectativas positivas diminuiria as chances de êxito: aquele que não acredita em seu potencial de vencer, nem tenta.
Positivas ou nem tanto, as expectativas se revestem e reverberam de formas variadas em cada um, podendo muitas vezes se distanciar fortemente de um solo firme. Quando muito desajustadas daquilo que é real, elas geram frustração e podem se tornar uma porta de entrada para o lamento ou o vitimismo.
Todos os dias cruzamos com pessoas novas. Às vezes conhecemos uma específica, que passamos a admirar ou desejamos maior aproximação. Mal isso acontece, já começamos a elaborar narrativas. Tecemos uma construção de um futuro sem lastro porque ainda conhecemos muito pouco quem de fato é a tal pessoa. E ninguém tem a obrigação ou mesmo a capacidade de se encaixar nas narrativas que criamos. Pode ser que a nova pessoa não queira aproximação, pode ser que as convicções dela sejam avessas às nossas, pode ser que só exista um fio de afinidade e que esse fio seja frágil.
Também culturalmente somos influenciados a criar expectativas que raramente conversam com a realidade. No trabalho, sonhamos com produtividade, sucesso e satisfação permanentes. Na família, o bebê nasce cercado pelos sonhos e planos de pais e avós, passando a ser exibido como símbolo de orgulho. Mulheres e homens carregam expectativas cruzadas sobre quais papéis precisam desempenhar. Projetamos constantemente a imagem de um ser humano idealizado e quase inalcançável.
Paralelamente, heranças históricas e religiosas reforçam a sensação de que somos destinatários naturais dos benefícios da existência. Em vez de hóspedes passageiros, que participam de um todo e precisam contribuir com uma construção e um legado, torna-se fácil deslizar para uma visão em que o ser humano se coloca no centro de tudo, como merecedor de todas as benesses da vida. Esse senso inflado de importância alimenta expectativas irreais e amplia a distância entre o que esperamos e o que a realidade pode efetivamente oferecer.
Nesse contexto, pode surgir a sensação de ser incompreendido. Abdruschin considera que, muitas vezes, calculamos carregar do lado de dentro um tesouro de valores que o mundo ao redor não consegue enxergar. “Na realidade, porém, em tais almas nem se encontram tesouros ocultos, mas em lugar destes apenas uma fonte inesgotável de anseios desmedidos, que jamais podem ser satisfeitos”, pondera o autor de Na Luz da Verdade.
A expectativa saudável exige um compromisso com o tempo presente, em que seja soberana a disposição para enxergar as pessoas como elas são de fato e decidir, com maturidade, se aquilo que elas oferecem é compatível com o lugar que gostaríamos que elas ocupassem em nossa vida. Assim, podemos ofertar proximidade, confiança e pertencimento de forma mais prudente.
A relação que tecemos com o tempo presente e futuro também molda nossas expectativas, como observa a filósofa francesa Simone Weil: “Quando somos desapontados por um prazer que esperávamos e que chega, o desapontamento é porque estávamos à espera do futuro, e assim que ele está lá, é presente. Queremos que o futuro esteja lá sem deixar de ser futuro.”
Desejamos o amanhã, mas, quando ele finalmente se torna presente, já não conseguimos usufruí-lo plenamente. O hoje perde sua valia porque logo é atravessado por novas projeções e o que foi aguardado parece insuficiente. A vida passa a ser uma sucessão de antecipações e a experiência concreta se empobrece. Em vez de habitar o agora, permanecemos inclinados para o que ainda virá, como se a plenitude morasse sempre no amanhã.
“Cada hora do presente tem de tornar-se um verdadeiro vivenciar para o ser humano ! Tanto o sofrimento, como a alegria. Ele deve estar aberto e assim alerta para o presente, com todos os seus sentidos e pensamentos, e com a intuição”, considera ainda Abdruschin.
Viver de forma consciente no presente pode ser um bom contorno a escolher. E, curiosamente, é justamente o encontro com os limites que devolve o chão: ao perceber o que não é possível, começamos a discernir o que é — o campo real das potencialidades e do que pode, de fato, ser construído. É preciso ter coragem para reconhecer a realidade e, então, desenhar expectativas mais alinhadas com possibilidades reais, ainda que esperançosas. E aí, quem sabe, usufruir realmente a primavera de cada dia, especialmente pelo prazer de estar vivo.

A expectativa acompanha a experiência humana: lançamos ao futuro desejos, temores e cenas do que gostaríamos de viver. Ela pode orientar passos e alimentar a esperança, mas também pode frustrar ou aprisionar, quando...

“De todos os lados acorriam os homens, aproximando-se da povoação. Os homens e rapazes vinham correndo apressadamente do lado do mar, com suas armas de arremesso. Já se podia perceber neles a educação dada por Hjalfdar. Ele havia incutido neles a sua serena conduta; apesar da grande pressa e da máxima vigilância, podia se notar neles o domínio sobre si mesmos.”
A expectativa acompanha a experiência humana: lançamos ao futuro desejos, temores e cenas do que gostaríamos de viver. Ela pode orientar passos e alimentar a esperança, mas também pode frustrar ou aprisionar, quando demasiadamente irmanada à necessidade de controle ou a ideais inatingíveis. A expectativa é uma janela sempre aberta: a paisagem que avistamos mostra como nos relacionamos com o tempo, com o outro e com a realidade - às vezes concreta, às vezes imaginada.