Individualidade

janeiro 28, 2020

Imagem do texto "Individualidade" - O Vaga-Lume


A individualidade de uma pessoa se manifesta em pequenas singularidades: as palavras preferidas que compõem o dicionário de sua fala, os movimentos estampados na tecitura de sua testa, o jeito de abranger o outro com o olhar, a maneira de enxergar certo tom de azul, o conjunto pessoal de conceitos e valores – vivenciados e convictos, ou simplesmente emprestados –, as capacidades e talentos que fermentam em seu interior… A individualidade abriga uma porção de nuances, que fazem de uma pessoa um ser diferente de todos os outros da mesma espécie.

“Aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os demais.”

Nilton Bonder

Com forma e sem fôrma

 “Nós, incas, somos desde longos tempos um povo unido e feliz. Mas isto somente foi possível por ter cada um contribuído com a sua parte. Isto é, cada um sempre viveu de tal modo, que a ligação com a Luz sempre foi conservada! Como sabeis, um povo se compõe de seres humanos individuais!”

Roselis von Sass, A Verdade sobre os Incas 

Não há duas impressões digitais iguais. Também a íris dos olhos não deixa dúvida. Cada pele e cada olho é uma aquarela original. Já na semente, no que há de mais íntimo em cada pessoa, há riqueza de tendências, aptidões e escolhas particulares, que se vão delineando ao longo da existência.

Se os olhos são únicos, o jeito de olhar também é. “Tomemos novamente duas pessoas como exemplo. É-lhes mostrado na infância uma cor e explicado que se trata da cor azul. Cada uma dessas pessoas considera sempre, por consequência, essa bem determinada cor, vista por ela, como sendo azul. Mas com isso não fica provado que ambas vejam essa determinada cor da mesma maneira! Acontece o contrário. Cada pessoa vê em verdade essa cor, por ela chamada azul, de modo diferente da outra pessoa”, escreve Abdruschin em Na Luz da Verdade – Mensagem do Graal.

Além do olhar único, a singularidade de cada um se desenha em outros âmbitos da vida. Tal como uma espécie de liberdade, a individualidade incentiva a buscar aquilo que nos move, que traz completude e promove realização. Como tudo o que é particular e único, a individualidade tem formas, mas dispensa as fôrmas. Por isso, o desenvolvimento de uma individualidade é um passeio por alamedas estreitas, cercadas de diferentes atrativos, com pequenas bifurcações laterais, diferentemente de uma rodovia larga, onde todos trafegam para o mesmo destino, com velocidade e ritmo similares.

Desenvolver a própria individualidade não é o mesmo que sucumbir ao individualismo ou cultivar uma relação de amor com o espelho. Tampouco colocar na conta da autenticidade a falta de polidez com o mundo, a ausência de cuidado e compreensão para com o próximo. A individualidade permite, contudo, desenvolver as próprias potencialidades, buscar um propósito e achar um caminho original, sem precisar ser massa feita para caber em fôrmas alheias. Daí seu caráter libertador.

Ao percorrer qualquer das alamedas estreitas, a relação com o mundo e com o outro tem papel fundamental. Muitas vezes, é olhando para fora e exercitando a convivência que nos reconhecemos. Assim, um novo relacionamento – seja de amizade, amoroso ou profissional – não significa o nascimento de um novo par, mas de duas novas individualidades, que se ajustam ao delimitar fusões e fronteiras, ao flexibilizar formas e descobrir limites.

Ao fortalecer a própria individualidade, o verbo servir geralmente adquire novo significado: pode-se servir no sentido amplo de ser útil e prestar serviço ao outro – transbordando aquilo que se é –, e pode-se servir no sentido de se encaixar num lugar, antes vazio, que só uma pessoa específica consegue ocupar.

Ocupar um espaço é um presente e impõe responsabilidade. A responsabilidade de se desenvolver e transbordar as próprias potencialidades, beneficiando o todo. Ao estarmos repletos de nós mesmos, podemos dar em vez de precisar receber tanto do outro. Repletos não no sentido de arrogâncias e egos, mas no de gostos e reflexões e pulsação e dúvidas e buscas. Essa busca de completude impõe trabalho. Trabalho de questionar o que chega, antes de abraçar como verdade. Trabalho de delinear conceitos, formas de viver e até a própria filosofia de vida.

“A filosofia de vida é um feixe de sabedoria que você acumula com suas leituras e experiências. Não é uma ideologia rígida que impede o desenvolvimento e a complexidade. É algo vivo, uma ideia em evolução a respeito da vida e que só pertence a você”, diz o escritor Thomas Moore.

Acumular sabedorias para transbordar entendimentos pode ser um bom olhar para a individualidade. Um olhar que acolhe a amplitude que cada um já tem e perscruta os espaços estreitos, que merecem expansão. Por mais longa que seja a caminhada, sempre estamos acompanhados de nós mesmos. Assim, vale a pena investir nessa companhia, fazendo dela alguém agradável para se conviver.



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