Um mestre jardineiro

Junho 24, 2015


Daniela Schmitz Wortmeyer


Nem sei bem como tudo aquilo começou. O sol do meio-dia, o calor e o desejo de chegar logo e descansar, mais a ansiedade pelo novo, em meio a uma profusão de cores e cheiros. Eu olhava em redor e parecia não acreditar no que via: um jardim extasiante, repleto de múltiplas espécies de variados tamanhos. Frutíferas, floríferas, gramíneas... Eu não sabia para onde olhar primeiro. Quando me dei conta, estava saboreando vorazmente os frutos doces e suculentos de um pé de amora preta com enormes espinhos. As espetadas eventuais nos dedos tornavam aquele momento ainda mais gratificante, com jeito de infância, e com ar maroto eu olhava para os lados, pensando se haveria algum espectador para minha travessura. Mas não havia. Eu estava livre para ser criança de novo, sentindo uma euforia inesperada naquele início de férias.

A experimentação de frutas não parou por aí. Descobrimos carambolas, abacates, lichias, laranjas, mamões, pitangas, amorinhas silvestres... O caminho entre as árvores era bordado por muitas flores, incluindo rosas de diversas colorações: vermelhas, amarelas, rosa-claro, salmão. Em um passeio pela pequena cidade dos arredores, encontramos grandes arbustos de framboesas, que pareciam saídos de um conto de fadas. Percebi como aqueles seres do reino vegetal me remetiam a memórias de encantamento e alegria, difíceis de situar no tempo e no espaço.



O jardim encantador era cultivado por um senhor de origem japonesa, que dias depois contava que levou quarenta anos para alcançar aquele resultado, trabalhando arduamente em um solo pauperizado. Passei a observar com que zelo e paciência o homem idoso recolhia o lixo que passantes deixavam nos canteiros, amarrava delicadamente com fibra de bananeira roseiras maltratadas, inspecionava as necessidades de cada planta, plantava e replantava, apesar das forças contrárias que se faziam sentir de forma intermitente. Aquela persistência silenciosa me comoveu profundamente. Pensei no quanto todo o esforço fora recompensado com o passar do tempo, no quanto o trabalho lento e contínuo produzira efeitos beneficiadores para inúmeros seres, incluindo o próprio jardineiro.

O exemplo do homem idoso me entusiasmou, para a jardinagem e para a vida. Fui a um viveiro de mudas perto dali e ousei escolher várias: framboeseiras, pitangueiras, roseiras arbustivas, e ainda uma jabuticabeira e um pequizeiro. Meu esposo e eu resolvemos também apostar na persistência e plantamos todas em uma área livre ao lado do condomínio onde moramos (em outras épocas, eu havia desanimado, depois de alguns malogros de semeaduras por ações de vizinhos desajeitados...). Outras pessoas também se alegraram com a ideia: o zelador, o síndico, alguns moradores.

E continuamos zelando pelas mudas, cada vez mais desenvolvidas. Outro dia montamos uma treliça para os pés de framboesa se entrelaçarem, pois estão despontando ramos fortes e surgindo as primeiras (belíssimas e deliciosas) frutas. Quando passo pela área onde estão as plantas, esqueço por alguns momentos das preocupações rotineiras e me entrego à contemplação dos brotos e flores, arranco ervas daninhas, podo galhos secos, analiso as medidas necessárias. De certa forma me entrego ao clima de encantamento que me motivou a trazer as mudas para cá, minha alma brinca em uma região que meu cérebro racional não consegue definir, mas que meu coração conhece bem, como o sonho de viver em um jardim de conto de fadas.



É claro que investir em ideais implica correr riscos: todos os dias me estico hesitante pela janela para ver se as mudas ainda estão lá... Deparar-se com a violação de um sonho é sempre uma experiência dura, como quando plantamos mudas que terminam por ser devastadas – na jardinagem como na vida. Confesso que ainda não consigo lidar bem com essa situação, pois o esforço e o cuidado dedicados a um projeto criam laços de afeto que almejam florescer sempre, sem interrupções. Mas a atitude de meu mestre nipônico me ensina que o amor e a confiança podem suplantar fracassos momentâneos, que é possível corrigir e replantar, apesar das forças contrárias. Mesmo que um jardim leve muitos anos para prosperar, as leis da natureza seguem seu curso e trazem, na época certa, generosos frutos aos que com elas labutam. Na jardinagem como na vida.








Fotos: Charles Wortmeyer


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