Pseudoliberdade

junho 02, 2012


Sibélia Zanon


“Se a ideia da interioridade dava consistência à vida dos indivíduos no passado, hoje vivemos o instantâneo, o espetáculo.”


Mary del Priore, historiadora



Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?O conto Branca de Nevefoi publicado pela primeira vez entre 1812 e 1822, mas quem diria? O espelho continua sendo nosso personagem principal.

Fala-se muito sobre a conquista de direitos e sobre o respeito às diferenças, discute-se o feminismo e luta-se para defender o princípio de que mulheres não são mercadorias. Mas como a teoria deve ser acompanhada pela prática, que histórias as passarelas do cotidiano têm para nos contar?

A historiadora Mary del Priore, em entrevista à revista Isto É, fala sobre a mulher e sua relação com o corpo: “No decorrer deste século, a brasileira se despiu. O nu, na tevê, nas revistas e nas praias incentivou o corpo a se desvelar em público. A solução foi cobri-lo de creme, colágeno e silicone. O corpo se tornou fonte inesgotável de ansiedade e frustração. Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho. É uma nova forma de submissão feminina. Não em relação aos pais, irmãos, maridos ou chefes, mas à mídia”.

Nesta nova realidade é o corpo que diz quem somos em detrimento das ideias. Além de reforçar a armadilha do julgamento pela imagem, a nova submissão acentua o estereótipo da mulher brasileira fácil e sensual mundo afora.

A filósofa Marcia Tiburi, em entrevista ao Portal Aprendiz, argumenta: “Talvez a educação, no ponto onde ela possa discutir a questão de gênero, devesse ajudar as mulheres a pensarem no porquê e como elas se tornaram aquilo que são hoje. Isso é uma pergunta urgente: o que está acontecendo com as mulheres hoje. Você as vê desesperadas por procedimentos estéticos, roupas, hormônios, ginástica. Por que esse desespero feminino? O que vai nos faltar sem tudo isso?”

O que vai nos faltar? Sem a ênfase no lado de fora, restaria fazer um lifting no lado de dentro. Fala-se exaustivamente sobre a liberdade feminina e a liberdade de preconceitos. Mas nas passarelas da nossa realidade, essas são pseudoliberdades, bandeiras levantadas por princesas românticas ou por rainhas malvadas: Espelho, espelho meu...

Filósofos, historiadores, sociólogos, psicanalistas avisam já há um bom tempo: a mídia e o marketing guiam a humanidade. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no livro Amor Líquido, é provocativo, ao mostrar que as parcerias seguem nesta mesma direção, obedecendo sobretudo às regras do consumismo e abandonando os princípios do amor.

 “Guiada pelo impulso, a parceria segue o padrão do shopping e não exige mais que as habilidades de um consumidor médio, moderadamente experiente. Tal como outros bens de consumo, ela deve ser consumida instantaneamente e usada uma só vez, ‘sem preconceito’. É, antes de mais nada, eminentemente descartável.

Consideradas defeituosas ou não ‘plenamente satisfatórias’, as mercadorias podem ser trocadas por outras, as quais se espera que agradem mais, mesmo que não haja um serviço de atendimento ao cliente e que a transação não inclua a garantia de devolução do dinheiro.”

A nova submissão ao espelho contribui com a superficialidade das relações, que, por sua vez, intensifica a sensação de solidão.

Erich Fromm, psicanalista alemão, conta no livro A arte de amar que, movidos pelo propósito de afastar a solidão, buscamos a sensação de pertencer ao rebanho. “Se sou como todos os outros, se não tenho sentimentos ou pensamentos que me tornam diferente, se me conformo em matéria de usos, roupas, ideias, ao modelo do grupo, então estou salvo – salvo da terrível experiência da solidão”.

A história nos mostra que a conformidade sempre foi desejada:“Os sistemas ditatoriais usam a ameaça e o terror para induzir a essa conformidade; os países democráticos, a sugestão e a propaganda”, continua Fromm.

Se deixo de ser só ao me igualar aos outros e uso como base para essa igualdade a mídia e a televisão, resta ainda a pergunta: Oque vemos na televisão? Um perigoso analfabetismo visual que, aliado à necessidade de conformismo, mata o questionamento, o senso de beleza, apercepção sobre o próprio corpo. A reprodução automática do que se vê nas telas aniquila, por fim, a capacidade de se espantar com a realidade. Passamos a gastar nossos salários para contentar espelhos mentirosos.

Que liberdade buscamos? A liberdade de pertencer ao rebanho?Que tipo de amor se atrai com a estratégia do culto à imagem? Um amor que cuida e aquece ou um pseudoamor descartável e utilitário? Provavelmente apenas mais uma relação-produto para ser descartada rapidamente. E agora?


 



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Sibélia Zanon

Desde o nascimento e pela vida toda carregamos uma cicatriz. O marco centralizado no corpo divide o abdômen em quatro partes, à altura do disco que se insinua entre as vértebras L3 e L4.

A cicatriz indica o local onde um dia esteve implantado um cordão umbilical, rio trafegando sais minerais, vitaminas, oxigênio e glicose entre mãe e feto — porta para a vida.

“O umbigo marca nossa ligação com a Terra e com todos os seres vivos, e não apenas com o corpo de nossa mãe”, sugere o filósofo Emanuele Coccia.

Assim como o umbigo, também o ato de cuidar é gerador da vida. Sem o cuidado não haveria sobreviventes: o primeiro choro inaugura a dependência radical por um provedor de afeto e leite. E essa dependência, palavra culturalmente carregada de estigma e negatividade, faz-se alicerce para a potência e o desenvolvimento.

Com o alicerce desenhado, somos convidados a ousar passos de independência.

E, embora tais passos sejam saudáveis e necessários, a ode à autonomia costuma ofuscar o sortimento de cuidados que nos cercam ao longo de toda a vida — muitas vezes expressos na simplicidade generosa de uma palavra ou de um prato de comida quente.

O cuidado circula por toda parte. O invisível guarda muitos cuidados. Basta pensar que, na materialidade dos corpos, uma ferida pode ser fechada, a exemplo da…

 

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