Minhas coisas favoritas

Janeiro 01, 2014


Sibélia Zanon

Quando eu era menina, tínhamos um balanço no jardim. No verão, quando caía a chuva forte nos finais de tarde, eu seguia de fininho até lá, subia na cadeira e me balançava de pé. O balanço ia para frente e a chuva encontrava meu rosto em cheio, o balanço ia pra trás e a camiseta se encharcava com as gotas grandes. Naqueles dias a liberdade cabia dentro de uma gota de água.

As coisas e os momentos favoritos precisam ser armazenados em um compartimento acessível da memória para serem revividos sempre que necessário ou desejado, assim como a música My Favorite Things, cantada por Julie Andrews no filme A Noviça Rebelde, e gravada por tantos outros, gosta de lembrar:

Girls in white dresses with blue satin sashes

Snowflakes that stay on my nose and eyelashes

Silver white winters that melt into springs

These are a few of my favorite things

(Meninas em vestidos brancos com faixas de cetim azul

Flocos de neve que caem no meu nariz e cílios

Invernos branco-prateados que se derretem em primaveras

Essas são algumas das minhas coisas favoritas)



Alegrar-se com as coisas boas e bonitas, conseguir enxergá-las e cultivá-las é uma forma de prezar o que se tem e de exercitar a gratidão. “Ao invés de embelezardes com toda a força e alegria o vosso ambiente, de torná-lo mais perfeito e de estimulá-lo para a plena florescência, quereis muitas vezes sair dele, porque assim vos parece mais cômodo, prometendo sucesso mais rápido. Quereis separar-vos dele para encontrar a desejada melhoria, já que, em todo o desconhecido, simultaneamente, esperais também melhoria, embelezamento! Procurai, antes de tudo, aproveitar de modo certo o que vos foi dado! Encontrareis aí milagre após milagre”, escreve Abdruschin em Na Luz da Verdade.

Embelezar o ambiente pode ser um propósito de ano novo. E se pensarmos no ambiente como algo amplo? O ambiente em que vivemos, o ambiente que desenhamos com os nossos desejos e pensamentos, o ambiente que construímos com as nossas palavras e ações?

A chegada de um ano significa o vislumbre de novos desafios. Mais momentos em que precisaremos recorrer às boas memórias, quem sabe também construir mais um bocado delas para alimentar nosso banco de ternuras, plantar lembranças favoritas também na vida dos outros.



Muitos se perguntam sobre o que o ano novo vai trazer, sobre as conquistas que serão festejadas, mas mais importante do que isso é a própria trajetória, o vivenciar do ano em si, como o poeta gregoKonstantinos Kavafis diz no poema Ítaca:

"Não percas Ítaca de vista,

pois chegar lá é o teu destino.

Mas não apresses os teus passos;

é melhor que a jornada demore muitos anos

e o teu barco só ancore na ilha

quando já estiveres enriquecido

com o que conheceste no caminho”.

Mas como lidar com essa jornada e com as nossas expectativas a respeito dela? O psicólogo Viktor Frankl sugere agir em vez de esperar: “Jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós”. E complementa: “Em última análise, viver não significa outra coisa se não arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento”.

A teoria, logicamente, é mais fácil do que a prática porque a teoria, na maior parte das vezes, estudamos com a cabeça. A prática, porém, vivemos com a intensidade de todo o corpo, coração e espírito, apresentando-se mais abrangente e, por isso, exigente. É na prática que descobrimos se a teoria proferida deixou de ser algo frio, que funciona apenas “da boca para fora”, e ganhou vida, incendiada pela ação.

No novo ano - e que ele possa ser novo não só no calendário, mas também nas respostas que daremos às perguntas da vida – desejo apreciar intensamente a chuva e as coisas preferidas para lidar com os desafios com mais coragem e, quem sabe assim, tornar os ambientes mais bonitos.


“When the dog bites

When the bee stings

When I'm feeling sad

I simply remember my favorite things

And then I don't feel so bad”

(Quando o cachorro morde

quando a abelha pica

quando estou me sentindo triste

eu simplesmente lembro das minhas coisas favoritas

e então não me sinto tão mal)


My Favorite Things

Fotos: Sibélia Zanon


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