Leveza

setembro 19, 2019

Leveza    


É muito boa aquela sensação de frescor que sentimos quando uma rajada de vento vem acompanhada de bom perfume. Ou quando respiramos profundamente num passeio por uma alameda de árvores, que parece nos proteger. Às vezes, esse frescor externo circula também do lado de dentro das nossas percepções, fazendo a vida parecer mais leve. Só que nem sempre é assim… e, por vezes, conquistar a leveza pode exigir um exercício pesado.

“Uma leve brisa movia o capim e as folhagens, e a fragrância das flores de cássias e das árvores de bálsamo enchia o ar. ”

Roselis von Sass, Sabá, o País das Mil Fragrâncias 

Conquistar Leveza

Um texto sobre leveza deveria ser leve? Talvez, mas para entrar no ritmo da leveza parece ser necessário antes pisar em solo pedregoso: lutar com propósito para conquistar a singeleza, afastar as complicações criadas pelo ego e achar espaço para usufruir a vida com alguma simplicidade, aplicando essa simplicidade principalmente na forma de pensar, que é a ignição de toda ação. É como se fosse necessário esforço para conquistar o que deveria ser prerrogativa natural.

Buscamos a leveza nas diversas áreas de atuação e interação humana. Sobretudo na relação interior que nutrimos com nós mesmos, porque ter como ponto de partida um espaço de tranquilidade ou, quem sabe, de paz interior, torna mais fácil desfazer os múltiplos nós dos desafios que se aproximam.

Muitas vezes, porém, parece que nos encontramos numa casa escura, fechada, o ar viciado e insalubre. É possível, por exemplo, que seja necessário vivenciar circunstâncias complicadas, como frutos de escolhas passadas. Ou, então, que surja o sentimento de culpa por ter prejudicado alguém em determinada situação. Ou, ainda, que exista uma permanente sensação de incompletude ou saudade de algo que não se sabe nomear.

Por mais que pareçam inconvenientes, certos pesos ou incômodos podem fazer parte de um processo de conscientização positivo, capaz de produzir mudanças na forma de agir, reconhecimentos, melhorias nas relações e assim por diante. A sensação de incompletude pode ter como função instigar a busca ativa por valores maiores, cutucando uma existência acomodada nas almofadas da falta de sentido.

Assim, aquilo que parece pesar nem sempre pode ou deve ser ignorado ou empurrado adiante, como um móvel inútil e indesejável, mas deve ser revestido de novos significados, convertendo-se em ganho e utilidade.

Muitas vezes o ar torna-se insalubre quando cada um gera, em torno de si próprio, um ciclo vicioso e cumulativo de pensamentos que se repetem, autoalimentam-se e são, por vezes, desnecessários e destrutivos. Peso criado e cultivado sem qualquer propósito.

Muitos e fartos podem ser os exemplos a esse respeito: cismar, sofrer por antecipação, sentir-se injustiçado, criar expectativas por ingenuidade, deixar que a publicidade o convença de que é infeliz, escolher parâmetros altos demais para comparação de desempenho, aparência ou padrão econômico. Enfim, eleger referências externas, transformando-as em pequenas ditadoras da própria existência.

“O que vem a ser bem e mal, cada um sente até nas pontas dos dedos, sem explicações. Cismar a tal respeito só traria confusões. Entregar-se a cismas é desperdício de energias, é como um pântano, um brejo viscoso, que imobiliza e asfixia tudo o que está ao seu alcance. Alegria radiante, porém, rompe as barreiras do cismar. Não tendes necessidade de ser tristes e oprimidos!”, escreve Abdruschin em Na Luz da Verdade, Mensagem do Graal.

Assim, considerando um cenário realista, com uma diversidade de desafios, ainda é possível abrir janelas, deixar o ambiente mais fresco e também mais singelo. Gerar mobilidade ao invés de desperdiçar energia. Escolher, por exemplo, interpretações mais objetivas e menos sombrias sobre as situações da vida pode colaborar para uma leveza inesperada. Em vez de pensar apenas no porquê, pode-se pensar: “Para que poderá me servir essa experiência? ”

Quando uma pressão pesa na casa escura e nos impele a abrir cortinas e janelas para deixar entrar luz e circular novo ar, outros movimentos se revelam: uma pessoa diferente passa ali pela calçada, o canto de um pássaro antes não escutado preenche o ar, o perfume de uma árvore empresta frescor ao ambiente. E, ao mudar a perspectiva do olhar, às vezes conseguimos fazer com que os próprios problemas deixem a sala de estar, e outras inspirações, ou também outras pessoas, entrem em cena. Como outras pessoas lidam com seus problemas? Como abrem novas janelas? Como podemos colaborar com o circular de bons ventos?

E… como nos olham as pessoas que nos amam ou admiram? Emprestar o olhar gentil dos outros, aplicando-o sobre si mesmo, e exercitar a leveza dos pensamentos a respeito das próprias dificuldades pode gerar novo impulso para a ação. Passando a fase do luto por uma eventual perda ou uma ilusão morta, chega uma lufada de frescor que convida a agir e transformar o que está ao alcance, em vez de elaborar tantas teorias sobre os fatos.

Ter como ponto de partida um espaço interior de tranquilidade para se conectar com possíveis soluções é trabalho constante. Pode ser que, às vezes, haja melhor equilíbrio e ar fresco circulando e que, outras vezes, experiências desafiadoras exijam esforços renovados para devolver a singeleza e clareza para novas decisões. Mas sempre é bom lembrar que, mesmo naqueles momentos em que a casa está escura, com ar viciado e insalubre, as janelas continuam existindo e, do lado de fora, circulam novos ares.



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