Sibélia Zanon
A água se deixa afetar pelas pedras no fundo do rio. Esgueirando-se, segue mais rápida, às vezes mais lentamente. Produz sons pequenos ao encontrar pedras pequenas ou sons grandes ao encontrar o precipício e se derramar em cachoeira.
Estar vivo implica em ser afetado e afetar, em seguir o fluxo entre as pedras, fazer a curva junto do rio e emitir novos sons que reverberam no mundo.
“O bem-viver para nós é aceitar o ambiente como ele é. É aceitar a árvore torta que está ali e aceitar a pedra que está ali. Se o rio está meio torto, deixa. É a maneira que ele surgiu. Não dá para fazer ele reto”, diz Carlos Papá, indígena do povo Guarani Mbya, que tem a Mata Atlântica como casa.
Aceitar a pedra e seguir se relacionando com ela… O relevo do chão abaixo dos pés, o frescor da água e de suas cores, o sabor e o cheiro da fruta, o marulhar do rio. Todo o tempo somos tocados.
“Sinto, logo sou”, escreve o antropólogo David Le Breton, parafraseando a conhecida frase “Penso, logo existo”, do filósofo René Descartes. Para o antropólogo, não existem alternativas senão experimentar o mundo, ser afetado por ele e transformar-se permanentemente.
Isso acontece de maneira singular. A mesma experiência pode alcançar cada um de forma única, de acordo com seu repertório, sensibilidade e momento de vida. A experiência se aproxima como um catalisador que gera movimento contínuo, em que cada um é receptor e agente transmissor. Afetados pela vida, também seguimos tocando-a, em movimentos visíveis e invisíveis.
Voluntária ou involuntariamente, devolvemos ao mundo aquilo que elaboramos das experiências, por meio de silêncios, pensamentos, gestos, palavras e escolhas. Assim, enquanto seguimos nos constituindo, também construímos o entorno e mais além, até dimensões que escapam aos olhos, como o universo dos pensamentos e dos significados. Se cada pessoa experiencia os dias de modo único, também será singular a sua forma de elaborar, significar e transpirar tudo o que a atravessa.
“O corpo humano, com efeito, é afetado pelos corpos exteriores de grande número de maneiras, e é disposto de modo que afete os corpos exteriores de grande número de maneiras. Mas tudo o que acontece no corpo humano, a alma humana deve percebê-lo; a alma é, pois, apta a perceber grande número de coisas e tanto mais”, escreve o filósofo Baruch de Spinoza.
Além de um corpo provido de marcas digitais específicas, também a alma é única. Ela tem a capacidade para apreender novos significados e transbordar aquilo que a afeta de forma singular. Daí a beleza de elaborar interiormente a partir das experiências e de oferecer ao mundo algo próprio, que traz consigo o poder de afetar o outro de formas igualmente exclusivas.
“Podeis contribuir também, e mais fortemente ainda, para a paz e a bem-
-aventurança da humanidade; podeis, mediante pensamentos puros e alegres, coparticipar das obras que através de vós são realizadas por pessoas, mesmo distantes”, escreve Abdruschin em Na Luz da Verdade.
A água que passeia pelo rio também encontra o mar e chega a lugares inimaginados. Nossa forma de ser e de pensar também tem alcance maior do que aquele visível. Independentemente das pedras encontradas, escolhemos o que continua fluindo através de nós. Como estamos nos deixando afetar e como estamos afetando o mundo ao redor? Que sons estamos produzindo?
Afetar, afeto e afetividade são palavras que pertencem à mesma família etimológica. Estão relacionadas à ideia de ser tocado e tocar, de agir sobre algo e causar efeito. Afetar tem também a conotação de tocar emocionalmente. Assim, afetar pode não só produzir um efeito, como também transbordar afeto.
“Como para uma flor, a plenitude da vida não está em apenas existir, mas em oferecer e receber aquilo que a torna fecunda. O afeto é a doçura invisível que lhe dá sentido, atraindo encontros, memórias e vínculos que a fecundam. Sem essa seiva de ternura, falta-lhe o perfume que justifica a primavera”, escreve o rabino Nilton Bonder.

“...cada mau pensamento ou vontade má corre como sombra através do tecer, turvando com maior ou menor intensidade as áreas claras e destruindo num ou noutro lugar a beleza, ao passo...”
Abdruschin, Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal

“Tudo o que vibra do interior: os pensamentos em que se investe, a forma como se usa o tempo, as palavras pronunciadas são sementes que desenham a paisagem do mundo.”