Perfume de Brasil

dezembro 03, 2018

Daniela Schmitz Wortmeyer

Caminhava em um domingo ensolarado e quente, a atmosfera abafadiça tornava custoso prosseguir. Um vizinho sorridente me abordou, mas logo a conversa tocou a situação política do país e numerosas inquietações sobre o futuro turvaram ainda mais o ambiente. Despedi-me e prossegui, forçando-me a concluir a caminhada em consideração aos direitos dos caninos que me acompanhavam. O calor, a mente atordoada, o corpo indisposto, eu só pensava em terminar logo o passeio.

Ao atravessar uma área arborizada ladeando um prédio, chamou-me a atenção uma grande árvore repleta de flores amarelas. De repente, a constatação: “um pau-brasil!” Enchi-me de entusiasmo e me aproximei. Logo percebi o aroma intenso, um perfume inebriante que se espalhava com auxílio de uma brisa suave, tornando as pequenas flores amarelas, com um detalhe carmim ao centro, especialmente atraentes. Abelhas se fartavam naquele verdadeiro banquete aos sentidos, emoldurado por folhas verde-escuras reluzentes.

Sentei-me sob a árvore e deixei-me enlevar por aquela dádiva inesperada. O cansaço de outrora desapareceu e foi como se meus sentidos, meu espírito despertasse para a maravilhosa paisagem ao redor. Vi ao longe um jacarandá com suas flores azul-arroxeadas, flamboyants em tons vermelhos e alaranjados, jasmins-manga com imaculadas flores brancas. Foi como se todas as preocupações terrenas desaparecessem e eu fosse transportada para uma outra dimensão, de pura paz e harmonia.

Fiquei pensando no simbolismo daquela cena, sob a árvore que leva o nome do meu país. Chamada pelos indígenas de ibirapitanga, “pau vermelho”, por conta da tintura extraída de sua madeira cor-de-fogo. “Brasil”, um nome difundido pela boca de mercadores portugueses e posteriormente associado à árvore, era repetido em rituais de saudação a um gênio da floresta, em que se utilizava o extrato da planta. Como relataRoselis von Sass no livro Revelações Inéditas da História do Brasil, a pequena tribo dos tapicaris acreditava que o sangue do gênio “Mbrasil” corria pelas ibirapitangas. Mais além, a escritora esclarece que o nome Brasil significa, em um sentido mais profundo, “terra virgem, país indevassado”. 

Porém, há longos tempos esquecemos desse significado. Ao olhar as expressivas cores da bandeira nacional, muitos experimentam indiferença ou certo tom de ironia. Parece que os valores mais caros e profundos, as esperanças mais puras ligadas à terra-pátria, os vínculos de pertencimento e amor ao País, foram descartados com as desilusões pelos tantos equívocos humanos que se passaram sobre este solo. Esquecemos da beleza e do perfume do Brasil, que o sol incandescente não apenas castiga, mas alimenta novas brotações e formas de vida. 

Ao me levantar e caminhar lentamente de volta para casa, ainda enlevada pela experiência sob o pau-brasil, fiquei pensando se ainda é possível se encantar pelo Brasil, esta terra tão ricamente abençoada por uma vida pujante que insiste em florescer.

 



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