DONA LEOPOLDINA
A IMPERATRIZ DO BRASIL
Revelações Inéditas da História do Brasil - Roselis von Sass
No dia da partida Dom Pedro veio ao palácio num estado incrível de exaltação. Foi direto ao dormitório de Dona Leopoldina, que andava doente, desde sua volta da Bahia. Entrou no quarto batendo as esporas, colocou-se em atitude de comando, e declarou que era sua imperial deliberação que ela fosse com os filhos para Portugal, a fim de lá dar à luz a criança que trazia no ventre.
— Pois só desse modo poderemos assegurar para nós a herança do trono português. Leopoldina não ouvia nada do que ele explanava. Ouviu, sim, um ruído como o bramir dos ventos. Respondeu apenas negativamente e talvez tivesse dito mais alguma coisa, mas não sabia, pois Dom Pedro num dos violentos acessos de ira, agarrou-a pelos braços, sacudindo-a e empurrando-a para longe de si.
No mesmo instante, o cão fiel que nunca abandonava Dona Leopoldina, deu um salto e investiu ferozmente, de dentes arreganhados, contra Dom Pedro. Dom Pedro arrancou o sabre para matar o animal, o que não chegou a executar, pois seus companheiros, tendo dado pela sua ausência e demora, vinham justamente ver o que estava acontecendo.
Ao verem que Dom Pedro, nesse seu acesso de ira, procurava matar o cão, arrastaram-no depressa para junto de si e, fechando um cerco em torno dele, não o largaram até que montasse o cavalo que devia conduzi-lo ao cais do porto. Chegando lá, trataram logo de embarcar. Nem bem entraram no navio, já erguiam ferros e a embarcação partia.
No navio Dom Pedro ficou completamente prostrado. Amaldiçoava a todos quantos o haviam obrigado a deixar Dona Leopoldina naquela situação de briga. Viagens e mais viagens havia ele feito, e em todas elas tinha partido satisfeito, acompanhado de suas bênçãos. E agora? Ela estava doente… e ele em absoluto não queria que ela fosse com os filhos para Portugal. Somente então brilhou em seu espírito que na realidade não só queriam aqui ficar livres de Dona Leopoldina como dele também. E que outro motivo, senão esse, teria juntado Domitila com Dona Carlota? Leopoldina em primeiro lugar. Depois ele. Tendo agora Dom Pedro percebido que estava por demais comprometido em tudo, embriagou-se até cair sem sentidos.
Dona Leopoldina, tão logo Dom Pedro saiu dali, foi levada para a cama. Os médicos, chamados a toda pressa, não sabiam o que fazer. Não apresentava ferimento algum, nem parecia sentir dores. Custos, o cão, teve de ser retirado à força de junto da cama, pois não queria deixar ninguém se aproximar de sua dona.
Leopoldina jazia inerte na cama. Pediu a presença dos filhos e em seguida, passou a despedir-se de um por um deles. Ao ver Pedrinho, chorou um pouco, porque justamente para ele seu tempo tinha sido o mais curto de todos. Depois pediu a Ana que assumisse o lugar de mãe para seus filhos. Perdoava tudo a Dom Pedro e pedia que ele encontrasse igualmente perdão diante de Deus.
Tendo sido retiradas as crianças, Dona Leopoldina cerrou os olhos. Sentia-se feliz e livre como nunca. A única dor que ainda sentia era a de ter de deixar tão cedo os seus filhos. Pediu então a Deus, o Senhor, em silenciosa oração, que fizesse com que os filhos fossem conduzidos de tal modo, que viessem a reconhecer a tempo o salvador, pois se todos voltavam à Terra, também os filhos estariam aqui novamente. "Ó Senhor, não os abandones!" Após essa oração, desfez-se também sua derradeira preocupação. Era como se seu pedido tivesse sido ouvido. Portanto, não precisava mais se preocupar.
Nas horas que se seguiram, do que lhe restava passar aqui na Terra, pôde vivenciar, como preparação, já uma grande parte do Juízo Final. Viu bem como o juiz e salvador descia dos céus à Terra, não sendo, porém, Jesus, embora tivesse que viver igual a Jesus, como ser humano entre os seres humanos. Onde, porém, estavam os servos de Deus? O mundo parecia estar povoado unicamente por servos de Lúcifer.
Entre os adversários da luz, conseguiu vislumbrar de novo algumas estrelas azuis e, onde estas se achavam, encontravam-se também os servos da luz. No meio dos inimigos da luz, portanto, estavam também aqueles que tinham uma missão a cumprir ao lado do juiz.
"Mais uma vez ainda agir entre os inimigos de Deus, ou melhor, lutar… ?"
Horror e medo fizeram estremecer o corpo de Dona Leopoldina. As pessoas e os médicos que se encontravam no aposento, pensavam que a agonia da morte havia principiado. Mas o tremor passou logo. "Que significa o nosso pequeno sofrimento terreno em comparação com o privilégio de poder servir à luz?"
A alma de Dona Leopoldina começava a desprender-se. Divisou ela, então, através das paredes, uma multidão imensa de pessoas ajoelhadas em oração. Admirada, notou que oravam por ela. Por quê? Não sabiam, então, que fora liberta e podia agora voltar à sua verdadeira pátria? Não sabiam que tinha sido uma agraciada? Agraciada como todos quantos permaneceram ao lado da luz?…
Mais uma vez ainda Leopoldina foi de novo arrastada para a Terra. Seu querido cão tinha se libertado, de alguma forma, conseguindo chegar até sua cama, e lamber uma de suas orelhas. Ouviu ainda como o oficial Görgey falava com o cão e procurava afastá-lo de junto da cama. Ao mesmo tempo conseguiu captar o pensamento dele e teve de sorrir, pois Görgey pedia a Deus que nunca mais em sua vida precisasse ver outra vez Dom Pedro, nem mais ver a cidade maldita, em que mulheres indefesas podiam ser assassinadas. Impunemente assassinadas!
Leopoldina conservou durante longos momentos esse ar sorridente. Os dois médicos movimentaram-se, procurando fazer ainda uma última tentativa para salvar a agonizante. Como, porém, divergiam em seus pontos de vista, falhou o seu propósito. Assim pôde Leopoldina, livre e tranqüilamente, desembaraçar-se de seu corpo terreno. Um último agradecimento ergueu-se para as Alturas e um último pensamento de amor baixou para os seres humanos na Terra.
"Se todos pudessem saber e intuir como a morte era maravilhosa." Aromas de rosas envolviam seu espírito e espíritos conhecidos seus, belos, estendiam-lhe, saudando, os braços. Estava agora entre os seus iguais. Para trás ficara o seu corpo terreno, restando apenas uma vaga lembrança no espírito que por curto espaço de tempo dominara esse corpo.
Tão-só depois da morte de Dona Leopoldina é que os médicos descobriram o motivo da sua morte ter sido tão tranqüila e sem padecimentos. Havia se exaurido lentamente numa hemorragia. Preocupados com o caso, passeavam de um lado para outro no jardim do palácio. Não podia transparecer e vir a público o fato de não terem tomado medida alguma para salvar a enferma, uma vez que ignoravam por completo o motivo causador dessa morte lenta. Se tal acontecesse, estaria por terra toda a reputação profissional dos dois. Diante disso, procuravam urdir complicadas explicações técnicas para definir o que pudesse ter sido a causa da morte.
Leopoldina teria ficado surpresa se visse quão sincera e profundamente foi sentida a sua morte. Nos últimos meses de sua vida terrenal esteve tão só e abandonada, que nem lhe passava pela mente que alguém pudesse ainda se lembrar dela.
O povo, na verdade, deveria sentir pesar, não por ela, mas pela vida de Dom Pedro. No mesmo instante em que Dom Pedro deu nela o empurrão que a fez cair no chão, começou a extinguir-se a chama azul, que, embora fraca e bruxuleante, ainda pairava sobre a sua cabeça. E os laços espirituais que o prendiam a Dona Leopoldina, para cumprimento de um destino comum aqui na Terra, no mesmo instante também se romperam. Espiritualmente ele afundou até o degrau dos servos de Lúcifer.
Tristeza, profunda tristeza reinava entre os espíritos e seres luminosos da planície astral, encarregados de estabelecer ligação com os espíritos que serviam na Terra. Um após outro dos escolhidos seguiam os engodos dos servos de Lúcifer. A humanidade estava madura para o Juízo Final…